quinta-feira, janeiro 28, 2016

Entre um carril e outro

A ida de ou o regresso a casa é efectuado de comboio. Poderia fazê-lo de carro, é verdade, mas o facto de o fazer de comboio permite-me, não apenas apreciar toda uma panóplia de pessoas, todas tão diferentes, com imensas histórias diárias, provenientes das mesmas mentes, como também ler; ler com gosto e prazer nos balanços e balanceio descompassado num compasso previsível do comboio, enquanto galga milhas, efectua paragens e retoma o andamento.

Gosto, então, de ler. Mas também gosto de viajar de comboio. Os sub-urbanos são os meus prediletos. Param em todas as estações e apeadeiros, são utilizados por todas as classes sociais, ou quase todas, demoram mais tempo a percorrer a distância e é ali que se encontram as mais fantásticas e hilariantes aventuras.

Num destes dias, no comboio das 7:26 horas, num dos bancos de seis lugares, três virados para outros três, viajavam seis pessoas, um homem e cinco espécimes que, em principio, não são possuidores de miudezas no baixo-ventre.

A conversa ia fluindo entre ele e uma ela, enquanto que os restantes elementos, ou simplesmente iam escutando as mais diversas teorias e conhecimentos exímios do macho do grupo, ou se limitavam, uma delas, a dedilhar duas agulhas envoltas em linha de lã.

Cada vez que a mulher que dialogava dizia algo, fosse o que fosse, sobre o tema que fosse, ele por cima, fantástico conhecedor da matéria, esgrimindo elevado conhecimento técnico apenas ao alcance de tão extraordinária sabedoria, sempre com um inicio de intervenção, bastante eloquente da ignorância da sua parceira de diálogo, com um «você não sabe, mas...», capaz de prender qualquer ouvido às suas explicações.

- Você não sabe, mas houve uma sonda espacial que caiu a 100 quilometros de profundidade e só com um submarino telecomandado a conseguiram ir buscar. - ou - Você não sabe, mas há um comboio que anda a 300 km/ h.

Mas foi naquele regresso a casa, após mais uma jornada de trabalho, sentado naquele banco junto à entrada, no que tem dois lugares virados entre eles, estando eu e a minha mochila, ali ao meu lado, quando lia um trilho do texto e estava completamente dentro da história, que tive a sensação de estar a ser observado. 

Não posso precisar em que paragem foi que um casal octogenário entrou na mesma carruagem onde eu estava e se foram sentar no conjunto de bancos, quatro lugares, que se situava no lado contrário ao meu, na coxia. Chamou-me à atenção este casal, pela forma peculiar como ele se vestia; envergava uma farda de GNR, já bastante surrada, à cintura umas algemas, que não serviam certamente para fazer brincadeiras com a senhora acompanhante, e na cabeça uma boina dos comandos, seu grande orgulho, certamente.

Pensei por fracções de segundo, retomando a minha leitura, que o senhor viesse de alguma manifestação de ex-combatentes reformados. Mas não me recordei de ter escutado alguma coisa sobre o assunto.

O senhor sofria de problemas auditivos. Era perceptível, como vim a confirmar mais tarde. Falava muito alto, muito alto mesmo.

Estava então eu a ler o meu livro, curiosamente uma história onde a trama se passa, parte dela, no comboio; «A rapariga no comboio», quando me senti observado. Retirei a minha atenção da leitura e, levantando ligeiramente a cabeça, rodei-a para a direita; a pouco mais de quinze centímetros de mim, lá estava ele, o GNR octogenário com um odor a álcool, a observar-me.

- Você gosta de ler! - constactou num tom de voz elevado e com um bafo que quase me deixou em coma alcoólico.  

Olhei a carruagem de soslaio. Fez-se silencio e todos os olhares desaguaram ali, no espaço que eu ocupava e que aquele homem invadira.

- Você gosta de ler! - repetiu, ao que anuí, pensando que a minha confirmação o fizesse regressar ao seu lugar na carruagem. Mas não! Continuou - Eu sou poeta! Em França escrevi poemas e romances.

Fiz uma cara de «muito bem, parabéns.». Ele não desistiu;

- Então o que está a ler? - questionou-me, ao que lhe mostrei a capa do livro. Soletrou-o e disse-me - Muito bom!

Fiquei na expectativa de que tivesse saldado a sua curiosidade e regressasse ao seu lugar. Os olhares da carruagem não desviavam do meu espaço e eu tentava ser cordial com o senhor, sem no entanto lhe dar espaço a mais conversa. 

Foi então que aconteceu. Ele ainda não saciara a sua fome de cusquice e avançou com a frase;

- Você vive onde?

Fiquei a olhá-lo, nem sei se espantado com a forma directa de cusquice, se pela pergunta em si. Como não respondi de imediato, voltou a colocá-la;

- Você vive onde?
- Tem alguma coisa a ver com isso? - respondi-lhe em tom de pergunta, ao que ele disse;
- Hã?! Sesimbra? - Não respondi, insistiu. - Hã? Onde é que mora?
- Você não tem nada a ver com isso. - disse-lhe
- H~? Coimbra?

Toda a carruagem nos olhava. Ao aperceber-me que estava a chegar ao meu destino de chagada, levantei-me e disse;

- Desculpe, tenho de sair aqui.

Naquele momento os olhares desprenderam-se de nós e fiquei com a sensação que toda aquela gente estava há uma infinidade de tempo com a respiração presa e que naquele momento a tinham retomado.

- António, anda para aqui. - disse-lhe a senhora que o acompanhava, enquanto lhe puxava pela manga do casaco.

O comboio parou, as portas abriram-se e saí. Terminava ali mais um dia de histórias e estórias.   

domingo, janeiro 10, 2016

Uma das melhores características que alguém pode ter é CARÁCTER. Mas isso o dinheiro não pode comprar nem as posições que este ou aquele ocupam. CARÁCTER.

domingo, janeiro 03, 2016



Escrever é uma paixão que vai crescendo dia após dia, sem a pressão de ter de o fazer, seguir coordenadas ou temas. Não! Escrevo pelo prazer que me dá descarregar sobre o papel, primeiro, contrariamente ao que muitos outros escritores fazem, para depois passar para o computador.

Mas hoje dei comigo a pensar, sobre de que vale escrever, apenas por escrever, se esse prazer não puder ir de encontro à ajuda social que tantos necessitam? Não faz sentido, ou se calhar faz e eu é que não estou a ver a coisa como deve de ser.

Pois bem, decidi que quero que a minha escrita, seja ela boa ou má, com qualidade ou sem ela, com muitos ou poucos leitores, que vou doar parte dos meus direitos de autor a uma causa social. Ou seja, assim que comece a receber os meus direitos de autor, seja quanto for, não interessa, sobre as vendas efectuadas, 10% desse valor será entregue à instituição de apoio social CASA.

Porque de nada vale olhar ao meu redor e ver que há quem necessite e não tenha, todos devemos ajudar, mesmo com pouco que seja. Não o faço em busca de qualquer protagonismo. Não! Faço-o no sentido de ajuda, pois não sabemos o dia de amanhã.

sábado, janeiro 02, 2016


Mikellis White e Miguel Branco são a mesma pessoa. O escritor destes dois títulos, destas duas histórias de ficção, independentes, mas que se complementam e que terão uma terceira parte.

Mikellis White e Miguel Branco são a mesma caneta, o mesmo cérebro, a mesma mão, o mesmo pensamento, a mesma atitude.

G.R.U.P.O. e Camaleão são duas obras de uma história que agarra o leitor da primeira à última folha, frase, palavra e letra. São duas obras de arte por mim escritas, e se assim as não achasse, não as evidenciava, falava, delas bebia ou por elas ficava encantado.

E quem ainda as não leu, não sabe o que perde, não sabe o que não viajou, não sabe o que aprendeu de um mundo real, a muitos olhares escondido.

Quer saber mais sobre a história que estas duas obras relatam? Então leia-as e apaixone-se por lugares que desconhece, por sensações que nunca viveu, por personagens que nunca conheceu.
Ontem, ao ligar a televisão, pela hora dos noticiários, sim por que noutra hora qualquer não tenho acesso a qualquer canal televisivo, uma vez que a grelha de utilização já está definida pelas pessoas que não têm algo pendurado entre as pernas, cá de casa, seja pelos canais de música, animação ou telenovelas, verifiquei algo que quase me chocou. Não! Estou a brincar, não fiquei chocado, mas sim, de verdade, admirado.

Então ontem, ao ligar a televisão, verifiquei que o pivot dava informação sobre o bebé do ano 2015. E falava ele e comentava eu «Já sei quem foi. É sempre a mesma coisa.» e dizia a minha mulher «Como já sabes quem foi, se ainda não disseram?» e respondi eu «Porra, não me digas que não estás a ver quem foi?» e disse ela «Como queres que saiba quem foi?» e disse-lhe eu «Por que é mais do que evidente.» e respondeu-me ela «Conheces alguém que estivesse para ter bebé por esta altura?» e respondi-lhe eu «Não!" e disse-me ela «Então como é que sabes quem foi o bebé do ano 2015?» e disse-lhe eu « Por que é mais do que previsível.» e disse-me ela «Não te estou a entender.» e nisso o pivot de serviço anunciou que o bebé do ano era uma fêmea a quem os seus progenitores tinham atribuído o nome de código "Francisca".

E foi então que fiquei pasmado. «Francisca?», murmurei. «Porquê, quem achavas que poderia ser?», perguntou-me a minha mulher, enquanto eu, pasmado olhava para a televisão, via o desenrolar da notícia e esperava que, a qualquer momento o pivot de serviço voltasse atrás e assumisse, como o apresentador da Miss mundo, que se tinha enganado, que o erro era seu, que estava escrito, nãos nas estrelas como Santana Lopes um dia disse, mas sim, ali mesmo, no cantinho do teletexto, que afinal o bebé do ano não tinha sido a menina "Francisca", mas sim o supra-sumo dos recordes, o grande, único e fabulosos papa-recordes, Cristiano Ronaldo.

«Então o Cristiano Ronaldo deixou-se passar por uma pirralha na conquista deste título?» comentei, ao que a minha mulher disse «Estás parvo? Estão a falar do bebé do ano, daquele que foi o primeiro a nascer.» ao que lhe respondi «Exactamente, o primeiro. E o CR7, não o Caça-Ratos brasileiro, mas o nosso grande marcador. Onde será que ele andava para não gritar, quando o relógio badalou as 00 horas, no fogo de artificio do Funchal que "SÍÍÍÍÍÍ", saltado e informando que ele estava ali?», ao que a minha mulher, olhando para mim, me disse «Olha, chama os miúdos e venham para a mesa que o peru e as batatas já estão prontos.». E eu chamei-os e fomos para a mesa, comer o peru e as batatas, sem que o CR7 tenha ganho o título de primeiro bebé do ano e não tenha batido maias um record.

Virei-me então para ela e disse-lhe, já sentado à mesa e depois de uma garfada de comida «O peru está bom.»

sexta-feira, janeiro 01, 2016


Agora que já estamos em 2016, já foram postados, enviadas mensagens, telefonemas, cartas...essas não, já acabaram faz tempo, sms e afins para que o novo ano seja pleno de sucesso, paz, amizade, negócios e o diabo a sete, ainda que por vezes não se goste de quem quer que seja, mas mesmo assim se lhe dirija, no calor da noite de fim-de-ano um "Feliz 2016", para depois ao virar da esquina no pensamento, murmurio ou comentário se diga algo bastante diferente como "Quero que te fodas, mas é", bem vindo ao mundo real, onde temos mais um banco para pagar com os nossos impostos, mais contas para fazer, mais más caras para encarar, aquelas que passam o ano, também este de 2016 de trombas, daquelas de elefante, do tipo de que todos me devem e ninguém me paga, ou simplesmente que têm um mau acordar, daqueles diários e que ainda pensam que nós, comuns mortais, temos de as aturar, assim como as azias de uma vida mal humorada.
Para todos vós, que foram festejar mais uma noite, uma igual a tantas outras que ao longo do ano existem, apenas com a diferença de não alterarem os últimos quatro dígitos da data, mas que em tudo são iguais; copos, bebedeira, arrotos, risadas, amarguras, mal dizer, asneiras e chegadas a casa de costas, para que a vossa mulher ou mãe, ao vos apanhar a chegarem de manhã, não vos deem seca, ralhem, coloquem a pão e água durante um mês sem mesada ou uma noite de sexo bem passado, possam dizer "O quê? A chegar agora? Nem pensar, estou a sair para ir comprar pão quente, para quando acordasses tivesses algo fresco para comer. És uma mal agradecida, é o que és." e saem e vão comprar pão quente. Para todos vocês, um bom 2016, cheio de saúde, alegria, votos de sucesso nos vossos projectos e... olhem, que se foda quem anda de mau feitio e a pensar que temos de aturar uma queca mal dada ou um acordar aziado.
Mais doze meses se alinham diante nós, doze, exactamente o mesmo número que o relógio marca, em meia volta dos ponteiros. Doze, exactamente os mesmos doze que se reuniram, na última ceia ao redor de um homem a quem deram o nome de Jesus Cristo, um homem como tantos outros, mas que, tal como tantos outros, se viu traído por um que pensava ser seu grande amigo. E é nesses doze meses, doze, que muitos são aqueles que nos tentam trair. Mas nós não nos chamamos Jesus cristo, não oferecemos a última ceia e não somos parvos. Quer dizer, por vezes até somos, por que se assim não fosse, não permitiríamos que ao longo de mais de 40 anos continuassem a ser os mesmo filhas-da-puta a governarem um país que nada faz para melhorar, que parece ainda viver no tempo da inquisição em que não digas que podem ouvir, não fales que podes ficar falado, não faças que passas a ser apontado à passagem. E assim vamos vendo passar os doze meses, um atrás do outro, lamentando cada dia, cada passo, com um se fosse mais novo punha-me era nas putas e bazava desta merda de país, mas continuamos amarrados a um galho, com uma corda imaginária, com medo de dar um passo, aquele passo, o tal passo, o verdadeiro passo, o passo que faria a diferença, mas que não vai fazer, por que temos medo de o dar, por que fomos formados num medo escondido, por que não percebemos que há mais para além daquilo que nos ensinaram na escola, se é que na escola nos ensinam alguma coisa ou apenas nos formatam à imagem de uma ditadura quadrada, fechada e sem horizontes para além daqueles que a inquisidora ditadura democrática nos impinge há mais de 40 anos.
Daqui a doze meses estaremos a desejar um feliz 2017 e a brindar e a comer e essas merdas todas. A ver o Estado Social a morrer, abandonado, perdido nas ruas e o Estado dos opulentes ostentadores de não sei bem o quê, a largarem milhares de euros em fogo de artificio, que o povo tanto gosta e aplaude, a fazerem esse mesmo povo pagar os devaneios de uma banca falida, podre, cheia de corrupção. Povo que aplaude enquanto se queixa, chora enquanto opulente uma riqueza que não tem, vive, numa morte anunciada.