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sexta-feira, junho 17, 2016

No prado verde contigo (III)




- Sim , acho! Depois disso, procurei encontrar um sitio onde pudesse estar sempre que me sentisse chateado; e foi este o que encontrei. Sabes, gosto de aqui estar a contemplar o céu. Gosto de fechar os olhos e ficar a escutar o nada.

(silêncio)

- Gostas de ler?
- Gosto.
- Eu também gostava de gostar de ler.
- E não gostas?
- Na verdade não é que não goste, mas acho que nunca me ensinaram a gostar de ler.
- Posso ensinar-te, se quiseres.
- A sério? E como é que se faz isso?
- É fácil. Gostas de filmes?
- Sim.
- Então isso é meio caminho andado.
- Mas gostar de ler livros não tem nada a ver com gostar de ler.
- Não? Então porquê?
- Olha que pergunta!  Nos filmes tens as cenas, as músicas, os sons, a envolvência, a emoção, os grandes planos, as expressões das personagens...
- Hum! Hum!
- ... num livro, tens um conjunto de letras, sei lá!
- Pois, é verdade! -  rodou a cabeça, olhando para Rodrigo. Este mantinha-se com os olhos fixos no céu. - Eu também gosto de ver filmes, mas se posso criar, dentro da minha cabeça, na minha imaginação, as cenas, o espaço da acção, a fisionomia das personagens; posso imaginar as vozes, as músicas que completam as cenas... aliás, melhor ainda, posso ver-me na pele das personagens, sentir o que eles sentem, ver o que eles veem, partilhar as suas emoções, sejam elas de alegria ou tristeza, mas também posso colocar-me como mero observador.
- E consegues isso tudo quando lês um livro?
- Sim, tudo! Mas claro, nem todos os livros me proporcionaram isso.
- Não!?
- Não. Primeiro temos de encontrar o tipo ou os tipos de literatura com que nos identificamos. Por exemplo, eu não gosto de romances literários, nem os chamados "fantástico" ou os romances amorosos. Gosto de aventura, policiais, crime, suspense.
- Então e eu?
- Não sei! Que tipo de filmes gostas?
- Gosto de filmes de aventura.
- Optimo! Vou arranjar-te um de aventuras.

(silêncio)

- Sabes... - disse Raquel - ...também gosto de estar aqui.
- É bom, não é?
- Sim, é muito fixe. - silêncio - E vens cá há muito tempo?
- Se calhar há mais de um ano.
Estendendo o seu braço direito, deu a mão a Rodrigo, enquanto se mantinham deitados na relva a contemplar o céu.

quinta-feira, junho 09, 2016

No prado verde contigo.(I)



- Sabes... - disse - ... também gosto de aqui estar.
- É bom, não é?
- Sim, é muito fixe. Vens cá muitas vezes?
- Sempre que posso, venho.
- E vens cá há muito tempo?
- Nem sei... - pensou um pouco - ...se calhar há mais de ano e meio.
- E por que começaste a vir aqui?
- Olha, vou contar-te. Um dia estava na escola e a professora de matemática disse-me - Olhe lá, menino, está a pensar em quê? - e eu que estava distraído respondi-lhe - Hã! - e ela disse-me - Hã?! Acha que é assim que se responde à professora? Primeiro está distraído, certamente a pensar na morte da bezerra...
- Em que bezerra estavas a pensar?
- Não estava a pensar em bezerra nenhuma. Foi ela que disse.
- Então mas por que disse ela isso?
- Disse-me que era uma expressão.
- Não entendo... mas a bezerra morreu?
- Não existe nenhuma bezerra.
- Não!
- Ela disse que eu estava distraído, a pensar na morte da bezerra e eu perguntei-lhe qual bezerra e ela respondeu-me que não havia bezerra, que era uma força de expressão e eu respondi-lhe o que é que a matemática tem a haver com o reino animal e ela disse-me que era o facto de eu estar distraído.
- E estavas?
- O quê?
- A pensar na morte da bezerra?
- Não! Estava distraído.
- Hã!
- Depois ela começou a dizer que não tinha melhores notas porque não estava atento na aula; eu disse-lhe que sim.
- Que sim?
- Sim! Que sim.
- Que sim, o quê?
- Que sim que estava atento.
- E estavas?
- O quê!
- Atento.
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Estava e não esta.
- Como estavas e não estavas?
- Estava atento, mas não era ao que ela estava a falar.
- Ah! Ah! Ah! - gargalhou.
- Estás a rir-te?
- Sim! Teve piada.
- Pois tem, mas devias de ver a cara da professora quando me perguntou - Ao que é que o menino está atento? À aula não é certamente.
Estou atento aos meus pensamentos.
- E o que é que os seus pensamentos têm de interessante para a aula de matemática?
- Para a aula?
- Sim! O menino não está na sala de aula?
- Estou! Mas os meus pensamentos só a mim me pertencem. - disse-lhe eu e ela respondeu-me - Então fique com eles para quando está fora das aulas.
- Está bem. - disse-lhe eu; e ela interpretou que eu estava a gozar com ela e então disse-me:
- Levante-se e venha aqui à frente; e eu fui e ela tentou envergonhar-me e humilhar-me...
- A sério?
- Sim! ...quando cheguei junto a ela, disse-me - Sobe para o estrado. - e eu subi.
- Meninos... - começou por dizer, com uma expressão de gozo - ...o pensador.

(continua)