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terça-feira, março 24, 2020

Ensaio sobre o amor - 3 - Capítulo 1


Capítulo 1

Aqueles foram os dez metros de filme mais longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô, e depois seu pai por terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num emaranhado de floresta silenciosa e muda, onde os pássaros calados eram cúmplices do seu desassossego emocional.

terça-feira, outubro 06, 2015




Meti a mochila às costas e parti. Meti os pés à estrada. Naquela estrada sem fim. Conheces?
Lá dentro, na mochila, não na estrada, até porque a estrada a todos pertence mas mochila apenas é minha, penso eu, coloquei o que mais necessitava para a minha viagem... um caderno e três canetas.
Sim! tr~es canetas, porque temo que deixem de escrever e depois...como vai ser depois?
Para um escritor ficar sem tinta na caneta, é a mesma coisa que um corredor de automóveis ficar sem gasolina no depósito.
Por vezes penso que sou um canetodependente, se é que se pode ser dependente de uma caneta. Afinal, sempre se pode escrever com um lápis.
Quando pisei o alcatrão não pensei para onde ia. Pensei apenas...que ia.
E lá fui eu.
Tinha dado os meus primeiros passos quando me deste a mão. Disseste-me que era para não cair. Mas já me achava tão grande para poder dispensar a tua mão. Afinal não. Tinhas razão.
Mais tarde percebi o teu sinal ao me dares a mão.
Meti a mochila à estrada e segui o meu caminho. Na verdade não o conhecia, mas dispus-me a descobri-lo.. com os meus sapatos, com as minhas pernas, com o meu saber e determinação.
Não era uma caminhada fácil, apercebi-me, mas era a que escolhera.
Não era uma viagem segura, mas sempre ouvi dizer que a sorte protege os audazes. E eu resolvi ser audaz.
Pus-me a caminho. Acreditei. Sonhei. Coloquei nas pernas as minhas forças e calcorreei aquela estrada. Tantos buracos e montes encontrei. Nunca foi fácil, mas lá fui caminhando e acreditando.
Houve alturas em que me mostraram caminhos que pareciam mais fáceis, é verdade. Mas sempre achei que se eram mais fáceis...não eram para mim. E segui o meu caminho, aquele que escolhi.
Hoje continuo na estrada.
Hoje continuo a caminhar.
Hoje encontro bons asfaltos, onde posso descansar, mas também rudes terras, onde tenho de olhos bem abertos caminhar.
Amanhã, sim, amanhã, não sei caminho vou encontrar. O que sei é que será sempre o que vou escolher, jamais o que me vão encomendar.

domingo, fevereiro 23, 2014

Ensurdecedor silêncio que me matas



É mortal o silêncio que os seres, estes seres que desejam um futuro diferente, de promessas infindáveis, de anseios luzidios, sentem num sufoco atroz. É doentio o tempo que medeia a incerteza e o desejo de ser diferente, ousado, olhar em frente e buscar a verdade que se esconde, guardada, fechada, dissimulada na sombra de um olhar mentiroso e palavras que não se escutam. É profundo e frio o sentimento insuportável que cada ser, esse mesmo ser, ostenta num dilacerante e frustrado momento no tempo.

Olhamos o infinito e desejamos dar i grito, aquele grito de ansiedade, de vontade, de força, de poder de liberdade. Aquele grito que não quer saber o que o outro livro vai escrever, que noticia no jornal da noite vai passar, que olhares se vão prender ou que deserto se terá de percorrer. A nossa vontade de fazer fica grandes vezes presa ao medo do que os outros vão pensar ou dizer, com base nas suas frustrações,

O vazio deve dar lugar ao concreto de fazer, de realizar, de ganhar e de vencer. O vazio, deve ser ocupado pelo que desejamos fazer, sempre olhando e sentindo o que queremos alcançar e fazer acontecer. Só assim o ensurdecedor silêncio que nos mata poderá dar lugar ao alado som de vitória, de realização, de conquista sobre o preconceito e a vergonha do silêncio. Haverá sempre, contudo, quem irá morrer asfixiado no seu silêncio.