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sábado, março 28, 2020

Ensaio sobre o amor - 7


ARMANDO

Estou neste banco, sentado, a aguardar a chegada de um tal de comboio. A mãe disse-me que é o transporte que nos vai levar a Lisboa. Parece que Lisboa é a cidade grande. Ouvi o senhor padre dizer que é lá que existem coisas que não há na nossa terra.
Aqui, sentado, escuto as vozes de muitas pessoas que também esperam o comboio; queria tanto poder andar por aí a mexer nas coisas, a ver, seja lá o que isso for; mas a mãe não me deixa. Diz que tenho de ficar aqui junto dela.

quinta-feira, março 26, 2020

Ensaio sobre o amor - 5


ANTÓNIO CEBOLA


- O meu filho! O meu filho! O meu querido filho! – pensei, ao escutar os primeiros choros do recém-nascido – Será menino ou menina? – indaguei-me.
- Parabéns! – congratulou-me Emília com um grandioso sorriso no rosto – Tem ali um belo rapaz.
- Um menino? – uma manifestação de enorme felicidade anunciou-se-me no rosto – Um filho macho! – murmurei.

quarta-feira, março 25, 2020

Ensaio sobre o amor - 4

(continuação)


Manuela, pegando na sua pequena cesta e na oferenda que levava ao “curandeiro”, deu a mão a Armando que, sentindo toda aquela agitação e azáfama, escutando todo aquele ruído das pessoas que falavam em voz alta e de modo anárquico, associado aos repetidos uivos provenientes do apito do comboio, assustado, enrodilhou-se à sua mãe. Momentos seguidos, escondeu-se atrás das saias da progenitora quando estridentes guinchos se libertaram das rodas que deslizavam sobre os carris metálicos, no momento em que o maquinista deu início à travagem da composição, em primeiro, mas também quando o vapor se libertou da caldeira da máquina, num sinal de alívio e dor.

terça-feira, março 24, 2020

Ensaio sobre o amor - 3 - Capítulo 1


Capítulo 1

Aqueles foram os dez metros de filme mais longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô, e depois seu pai por terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num emaranhado de floresta silenciosa e muda, onde os pássaros calados eram cúmplices do seu desassossego emocional.

segunda-feira, março 23, 2020

Ensaio sobre o amor - 2 - Prólogo


Prólogo

                A azinhaguense sentia a repulsa de quem está na linha, com as costas no frio muro, prestes a ser fuzilado pelo esquadrão da morte das SS de Hitler, a não ser que ceda à chantagem do seu carrasco. Apetecia-lhe fugir, mas não tinha como nem para onde. Havia uma escolha a executar. Olhou o pai de frente, como o forcado que olha o touro prestes a investir. Os olhos não libertavam apenas lágrimas. Libertavam dor, raiva, ódio daquele homem que estava em frente a si. Inspirou fundo com tranquilidade dissimulada; avançou.

quinta-feira, março 23, 2017

# O teu coração


                                             Quero dizer-te, amor, como te amo
                                             Esvaziar o meu sentimento em ti
                                             Tornar-te dona da minha razão
                                             Sentir que dei e não perdi.

                                             Quero abraçar-te, num abraço eterno
                                             Ser de ti, parte de mim
                                             Fundir-me em ti, estregar
                                             A um só corpo, flor de Jasmim.

                                             E tu a mim me deste
                                             O teu porto-abrigo, seguro
                                             Da queda me salvaste.

                                             E eu, grato de paixão
                                             Amar-te-ei até morrer,
                                             Até me parar, o teu coração.

                                                   # Miguel Branco


quinta-feira, outubro 29, 2015


Sou bombeira. Chamam-me, tal como aos meus camaradas, heróis. Heróis sem rosto, sem nome, de ocasião, de hora, aquela hora em que somos chamados e saímos sem perguntar para onde vamos ou sem saber se voltamos.

Sou bombeira. Sou mãe, tia, irmã de quem me cruzo, da criança que abraço no desencarceramento, filha e neta de quem salvo da enchente e tratadora de uma floresta que não é minha. Sou quem chamam por um número, quem batem nas costas com uma palmadinha de não sei o quê, quem ouve os aflitos por que "Chegaram atrasados".

Sou bombeira. Sou uma mulher da noite, quando tem de ser, mas não da vida. Sou uma mulher que corre, sem vencer maratonas. Sou uma mulher que salta, sem ir à olimpíadas. Sou uma merda qualquer quando me magoou para salvar os outros.

Sou bombeira. Sou desprezada na minha dor, mal tratada nos meus direitos, discriminada nas minhas funções, não aquelas em que presto auxilio, mas sim nas outras, nas que não uso a farda com a luz na cabeça, os ouvidos replectos de gritos, de dor, angustia e aflição.

Sou bombeira. Sou mulher, sim, sou mulher. Mas com a farda vestida nós, os BOMBEIROS, não temos sexo. Temos aquilo que quem nos governa não tem; ALMA, SENTIMENTOS, GRANDEZA, MORAL e CORAGEM.

sábado, outubro 03, 2015



O relógio marca, com as suas badaladas, as 20 horas, quando meto a chave na ranhura da fechadura da porta de casa. Estou cansada de um dia de trabalho e anseio deixar-me cair sobre o sofá e, quiçá, adormecer um pouco, num sono acordado, apenas com o pensamento num vazio que me ajuda a relaxar.
Não! Talvez um banho de imersão, cheio de espuma e sais revigorantes.
Sim, isso! Um banho de espuma sem tempo para sair de dentro da banheira.
Oiço cada estalito que a chave faz quando penetra a fechadura. Parece que está em extase, numa penetração ofegante.
Rodo a chave e abro a porta.
A casa está com uma luminosidade ténue.
Oiço o crepitar do fogo na lareira.
Chamo-te! Não respondes.
Largo a mala e a carteira e caminho em direcção à sala.
Da porta, parada, observo-te a sorrires no sofá.
Convidas-me a sentar, com dois suaves toques no sofá.
Descalço aqueles saltos que me matam a coluna e as pernas. Caminho sobre o tapete macio em tua direcção.
Deixo-me cair sobre o sofá, abandonando o dia que já ficou lá fora, à porta.
Inclinas-te e beijas-me a face.
Cerro os olhos e sinto o teu suave toque.
Da mesa, levantas dois copos de vinho tinto e ofereces-me um.
Faço uma degustação.
Olhas-me tão profundamente que sinto nesse olhar que já me despiste.
Afinal não foi apenas o olhar. As tuas mãos já percorrem o meu corpo. Desapertas-me o casaco e desfraldas-me a camisa.
Beijas-me ardentemente e sinto-me levitar.
Desapertas-me a camisa e afagas-me os seios.
Hum! Sinto-me bem.
Já estou sem camisa e desnuda da cintura para cima.
Beijas-me os mamilos e gemo de prazer. Agarro-te, com os dedos entrelaçados no teu cabelo e arqueio-me.
Sem esperares, arrancas-me a saia e as cuecas.
Sinto-me voar, levitar, a alma a ser sugada e tu não paras.
Seguro-te a cabeça mergulhada entre as minhas pernas e gemo, gemo sem parar.
Só agora reparo que estás em roupão.
Solto-te o cinto e dispo-te. Estás nu!
Mergulho em ti e levo-te à loucura. Gostas que brinque contigo e não paro.
As tuas mãos enrolam-se à minha cintura e levas-me para o felpudo tapeta que é vizinho da lareira.
Deitas-me e beijas-me uma vez mais.
Entrego-me.
A acompanhar o cantar do fogo na lareira, surge num tom muito suave a voz de Sarah Vaughan.
Bebemos um pouco mais de vinho e amamo-nos.
Entras em mim e passamos a ser um só, num ritmo tranquilo, ritmado, fugaz, por vezes, que me faz esquecer o mundo, o trabalho, as pessoas, os problemas.
Na nossa esfera, à luz daquele fogo da lareira, somos um só.

domingo, agosto 09, 2015

Cartas de amor

A ida para a escola veio a revelar-se uma enorme vantagem no campo afectivo. Aprender a escrever foi um salto exponencial na possibilidade de contacto, recorrendo ao silêncio, mas com a possibilidade de transmitir emoções.

O segundo ano de escolaridade do ensino básico, na ocasião chamado de segunda classe, com o saber adquirido ao longo do ano anterior, já se ia conseguindo criar algumas frases, ainda que pequenas. Entre mim e a Raquel havia uma aproximação tímida, envergonhada e escondida um do outro, pelo menos no discurso directo, pois no discurso do mensageiro «Ela diz que gosta de ti» e «Ele diz que gosta de ti». Deste passo à escrita foi um salto enorme.

A sala de aula era um pré-fabricado a que nós chamávamos de galinheiro. A classe era composta por vinte alunos, rapazes e raparigas. A sala tinha duas filas de sete secretárias, daquelas em madeira com tampo inclinado e que dava para dois alunos. A Raquel estava na quarta carteira da fila do lado esquerdo, sentada à direita e eu na quinta carteira do lado direito, sentado no lugar da esquerda. O primeiro bilhete de namoro foi ela quem o enviou. «Gosto de ti», dizia, ao que eu respondi, num outro bilhete, «Também gosto de ti». O método de envio era simples. Quando a professora estava distraída ou a escrever no quadro de ardósia, atirávamos os bilhetes um para o outro, rente ao chão. Bilhetes que passaram a ser cartas, com o avançar do tempo. Cartas que eram guardadas em casa, numa gaveta, supostamente longe da curiosidade da minha mãe que, vim a saber mais tarde, as leu. Um dia, numa dessas cartas, a Raquel escreveu «No intervalo quero um beijo» e eu, todo atrapalhado, mas cheio de coragem, quis dar esse beijo. Mas quis dar tantos que acabei por não dar nenhum.


Quando o ano lectivo terminou, fiquei a saber que ia mudar de cidade. Ninguém me avisou com tempo, para que me pudesse despedir. As minhas aventuras amorosas tinham terminado ali, deixando para trás uma namorada sem lhe ter dito que para o próximo ano já lá não estaria.