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sexta-feira, março 27, 2020

Ensaio sobre o amor - 6


O NASCIMENTO DE ARMANDO

Estava um dia solarengo e Manuela sentiu que chegara a hora de parir. Chamou António, que andava a tratar das alfaces na horta e pediu-lhe que chamasse a enfermeira Emília, pois a cria estava a nascer.
António correu até à casa da enfermeira que, em Azinhaga, também era parteira. Numa passada aligeirada e quase de reboque lá chegou Emília a casa da família Pereira.
Manuela tinha preparado, já há algum tempo, umas toalhas que não permitia que António utilizasse. «São para quando a cria nascer», dizia, assim como umas roupas que a dona Joaquina lhe houvera oferecido. Quando chegaram a casa, Manuela estava deitada e transpirava abundantemente. As dores abdominais eram muitas e mantinham uma frequência ritmada. A respiração era a de um canino cansado após uma correria. António chegou-lhe mesmo a perguntar se ela queria um púcaro de água. Talvez estivesse com sede, pensou.

terça-feira, março 24, 2020

Ensaio sobre o amor - 3 - Capítulo 1


Capítulo 1

Aqueles foram os dez metros de filme mais longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô, e depois seu pai por terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num emaranhado de floresta silenciosa e muda, onde os pássaros calados eram cúmplices do seu desassossego emocional.

segunda-feira, janeiro 29, 2018

#As cores da escuridão - Capitulo I



Aqueles foram os dez metros de filme mais longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô, e depois seu pai nas terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num emaranhado de floresta silenciosa, onde os pássaros calados eram cúmplices do seu desassossego emocional.

quinta-feira, setembro 24, 2015

Vem irmão, no teu cajado




Vem, irmão no silêncio,
De uma vida de dor
Que te queimou a voz
Que te arrancou a alma
Te amarrou na solidão

Arrastas-te no caminho,
No amparo do cajado
De uns pés cansados
Pelo tempo, rasgado
O teu corpo dilacerado
Em busca do Martinho.

Vem, meu irmão,
Apoia-te em meus ombros
De dois, um seremos
No caminho firme e duro
Um caminho faremos dourado
Do andar de pés tiranos
A força do Louvado.

E quando um dia chegarmos
A porta que nos aguarda
Estará aberta Além
Para finalmente, tranquilos
Descansarmos.

Miguel Branco em "Aurélio, o sem-abrigo"