Aqueles foram os dez metros de filme mais
longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de
nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno
e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução
do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô,
e depois seu pai nas terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à
longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio
não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num
emaranhado de floresta silenciosa, onde os pássaros calados eram cúmplices do
seu desassossego emocional.
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segunda-feira, janeiro 29, 2018
#As cores da escuridão - Capitulo I
sábado, junho 11, 2016
No prado verde contigo (II)
- Meninos... - começou por dizer com uma cara de gozo - ...o pensador. - disse enquanto me direccionava os seus dois indicadores - O pensador que com os seus pensamentos vai salvar o mundo das suas maleitas, os pretitos lá de África de morrerem à fome, os pobres que mendigam nas ruas, mal trapilhos, de se arrastarem ou até mesmo os glaciares do Ártico de derreterem. - olhou os meus colegas, que se riam, e voltou a colar aquele maléfico olhar na minha pessoa. Disse-me - Diga lá, pensador, em que tanto pensava? - e eu calei-me e olhei para o chão. Depois, pensei - Eu não estava a fazer mal algum. Só estava distraído da aula a pensar noutras coisas. - e foi aí que levantei os olhos do pavimento em madeira gasta e a olhei nos olhos. Sabes que eles não gostam que os olhemos nos olhos?
- Não sabia!
- Pois! Olhei-a nos olhos, primeiro, e depois para os meus colegas. Ela nesse momento dizia qualquer coisa que, se queres que te diga, nem tomei atenção do que era. Eles, riam-se todos, feitos parvos, a gozarem comigo. Todos não; a Joana, a Raquel e o Artur não se riam; estavam sérios; não achavam piada ao que se estava a passar. Olhei novamente para a professora, que continuava a mexer a boca, certamente a falar qualquer coisa que não interessava ao meu cérebro, pois mantinha-se fechado às suas palavras, e disse-lhe num tom tranquilo e sereno - Os alunos têm uma vida para além da vida da escola e têm sentimentos para além da relação de aluno. e disse-lhe e calei-me; e no meio da algazarra, uma muito pior do que o silêncio dos meus pensamentos que não estavam a incomodar a aula, ela não percebeu o que eu dissera.
- Então e depois? - indagou Maria.
- Depois disse-me assim - O que é que foi que disse?
- E tu?
- Eu respondi-lhe - Estava distraída ou a pensar na morte da bezerra?
- A sério? Ui! E ela? - o semblante era de espanto.
- Olha, ela apontou para o fundo da sala de aula e disse-me - Rua! O menino é muito mal-educado. Ponha-se na rua.
- Tu és mal-educado! Então ela é que estava a tentar envergonhar-te e humilhar-te.
- Pois! Mas é sempre assim, eles podem fazer o que quiserem, mas se nós dissermos alguma coisa, somos logo mal-educados.
-Foste para a rua. O que aconteceu depois?
- Olha... depois os meus pais foram chamados à escola, a professora pintou a manta da cor que lhe deu mais jeito, sabes como é, e depois quando cheguei a casa os meus pais vieram conversar comigo e saber a minha versão dos acontecimentos. Aceitaram-na, porque eu não lhes minto... sabes, a mentira tem perna curta e logo se descobre a verdade... dizia-te, aceitaram a minha explicação, mas logo me pediram que não entrasse em conflito com os professores.
- Está bem, não achas?
(continua)
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