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sábado, março 28, 2020

Ensaio sobre o amor - 7


ARMANDO

Estou neste banco, sentado, a aguardar a chegada de um tal de comboio. A mãe disse-me que é o transporte que nos vai levar a Lisboa. Parece que Lisboa é a cidade grande. Ouvi o senhor padre dizer que é lá que existem coisas que não há na nossa terra.
Aqui, sentado, escuto as vozes de muitas pessoas que também esperam o comboio; queria tanto poder andar por aí a mexer nas coisas, a ver, seja lá o que isso for; mas a mãe não me deixa. Diz que tenho de ficar aqui junto dela.

segunda-feira, janeiro 29, 2018

#As cores da escuridão - Capitulo I



Aqueles foram os dez metros de filme mais longos que alguma vez vira. Armando Cebola, assim lhe chamavam, era Armando de nome próprio e Cebola de alcunha que já vinha desde o tempo do seu tetravô paterno e que não morreu no passar das gerações nem na natural, mas acentuada, evolução do tempo e do espaço que atingiu a família na imensa epopeia que fizera seu avô, e depois seu pai nas terras do Ribatejo, na viagem dilacerante de sentimentos à longínqua França ou dos anos que o calendário não determinou e que o relógio não contou quando, seu pai, viveu ermidas na Serra da Estrela, fundido num emaranhado de floresta silenciosa, onde os pássaros calados eram cúmplices do seu desassossego emocional.

sábado, agosto 06, 2016

Tempo...



Damos conta que a idade começa a passar por nós quando, no final de um dia de trabalho, ao regressarmos a casa, de comboio, deixamos a cabeça pender sobre o vidro da janela e de repente, acordamos sobressaltados com um enorme estrondo (pelo menos na ocasião parece) e verificamos que todos estão a olhar na nossa direcção - a coisa está complicada - diz-nos um senhor com, seguramente, pela aparência física, mais uns quinze anos do que nós, mas que não adormeceu e não deixou cair o telemóvel e a mochila pelo chão.

Damos conta que o tic-tac dos anos vão passando, não pelos cabelos brancos - que esses são poucos -, mas quando a nossa cara-metade nos recorda que logo, logo, estamos no meio século; e damos connosco a pensar - como é que o tempo, este sacana, passou tão rápido?

quarta-feira, agosto 03, 2016

Uma pintura que rola



Hoje entrei numa carruagem do comboio, aquela que normalmente costumo entrar...quer dizer, não propriamente "a" carruagem que costumo entrar, mas sim aquela que se situa no local onde costumo entrar e, pasmem-se, de um dos lados da carruagem, o do lodo direito tendo em atenção o sentido em que se deslocava o veículo, não permitia que se avistasse do exterior para o interior, até nada demais, uma vez que, normalmente, os vidros se encontram fabricados nesse sentido. Acontece que desta vez, hoje, nem do interior para o exterior se via ponta de luz. Porquê? - Porque tinha uma pintura... não sei se lhe chame graffiti ou sujidade urbana. E era de tal ordem intensa, a pintura ( e horrível!), que não permitia entrada de ponta de luz.

Pode dizer-se que naquele comboio, naquele lado, o Estado terá de baixar o imposto do IMI; não há boa exposição solar nem vistas de referência.

sábado, julho 09, 2016

Um lugar reclamado


É sabido que nos comboios regionais não existem lugares marcados. Os passageiros compram o seu bilhete, escolhem a carruagem onde querem viajar, embarcam e, já no interior da composição, optam por um dos muitos lugares disponíveis para se sentarem, excepto pelos que estão destinados a determinadas pessoas, como idosos, deficientes motores ou grávidas - se bem que, penso muitas vezes que, não sendo idosos ou deficientes físicos, muitas são as senhoras que devem estar grávidas de algumas horas ou minutos...

Até aqui tudo bem, cada um é livre de escolher onde se quer sentar, desde que o lugar esteja livre.

quarta-feira, junho 22, 2016

Portugal, Portugal, Portugal


As viagens de comboio são realmente uma fonte de inspiração para a escrita de algumas frases, mas também espaço de enormes surpresas e apreciações realmente fantásticas. Daquela porta para dentro, no espaço de cerca de trinta minutos tudo pode acontecer, se escutar ou observar.

A minha saída do trabalho indicava que Portugal se encontrava empatado a um golo com a seleção da Hungria. Cerca de dez minutos foi o tempo que mediou a minha chegada ao comboio, depois de uma caminhada, um autocarro e outra curta caminhada.

Ansiava a chegada ao comboio, pois o calor que se fazia sentir era tanto que o ar condicionado e o fresco daquele vagão me iria saber bem. Entrei e logo me sentei no primeiro banco livre que encontrei. Quatro filas mais adiante, um grupo de quatro senhoras e três senhores ocupavam quatro bancos do dito comboio. Percebi algum reboliço. Espreitei, tentanto perceber o que se passava;

- Três a dois. Já fomos. - disse uma das senhoras.
- Quanto? - indagou, mais admirado do que interrogativo, um dos cavalheiros.
- Três a dois.
- Não pode ser!
- Pode pois! - confirmou, pegando no telemóvel e colocando o relato em alta-voz.

O relato foi escutado por toda a carruagem. E enquanto os homens se mantinham tranquilos, as senhoras, com o relato em alta-voz e a partilharem um par de auscultadores, iam esgrimindo alguns argumentos contra o nosso selecionador, acusando-o de não saber montar uma equipa de ataque, indicando que jogadores deveria levar a jogo e quais os que não tinham lugar na equipa. Verdadeira experts.

Vai às tantas e percebendo a incredulidade das senhoras e toda a sua agitação, comenta;

- Um destes dias estão as mulheres a beber mínis e a comer tremoços, enquanto nós somos mandados para a cozinha lavar loiça.

Elas olharam para ele e logo lhe disse uma;

- Cala-te homem, olha que quando chegares a casa vais é para o tanque. - saindo uma risada estrondosa entre o mulherio.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Entre um carril e outro

A ida de ou o regresso a casa é efectuado de comboio. Poderia fazê-lo de carro, é verdade, mas o facto de o fazer de comboio permite-me, não apenas apreciar toda uma panóplia de pessoas, todas tão diferentes, com imensas histórias diárias, provenientes das mesmas mentes, como também ler; ler com gosto e prazer nos balanços e balanceio descompassado num compasso previsível do comboio, enquanto galga milhas, efectua paragens e retoma o andamento.

Gosto, então, de ler. Mas também gosto de viajar de comboio. Os sub-urbanos são os meus prediletos. Param em todas as estações e apeadeiros, são utilizados por todas as classes sociais, ou quase todas, demoram mais tempo a percorrer a distância e é ali que se encontram as mais fantásticas e hilariantes aventuras.

Num destes dias, no comboio das 7:26 horas, num dos bancos de seis lugares, três virados para outros três, viajavam seis pessoas, um homem e cinco espécimes que, em principio, não são possuidores de miudezas no baixo-ventre.

A conversa ia fluindo entre ele e uma ela, enquanto que os restantes elementos, ou simplesmente iam escutando as mais diversas teorias e conhecimentos exímios do macho do grupo, ou se limitavam, uma delas, a dedilhar duas agulhas envoltas em linha de lã.

Cada vez que a mulher que dialogava dizia algo, fosse o que fosse, sobre o tema que fosse, ele por cima, fantástico conhecedor da matéria, esgrimindo elevado conhecimento técnico apenas ao alcance de tão extraordinária sabedoria, sempre com um inicio de intervenção, bastante eloquente da ignorância da sua parceira de diálogo, com um «você não sabe, mas...», capaz de prender qualquer ouvido às suas explicações.

- Você não sabe, mas houve uma sonda espacial que caiu a 100 quilometros de profundidade e só com um submarino telecomandado a conseguiram ir buscar. - ou - Você não sabe, mas há um comboio que anda a 300 km/ h.

Mas foi naquele regresso a casa, após mais uma jornada de trabalho, sentado naquele banco junto à entrada, no que tem dois lugares virados entre eles, estando eu e a minha mochila, ali ao meu lado, quando lia um trilho do texto e estava completamente dentro da história, que tive a sensação de estar a ser observado. 

Não posso precisar em que paragem foi que um casal octogenário entrou na mesma carruagem onde eu estava e se foram sentar no conjunto de bancos, quatro lugares, que se situava no lado contrário ao meu, na coxia. Chamou-me à atenção este casal, pela forma peculiar como ele se vestia; envergava uma farda de GNR, já bastante surrada, à cintura umas algemas, que não serviam certamente para fazer brincadeiras com a senhora acompanhante, e na cabeça uma boina dos comandos, seu grande orgulho, certamente.

Pensei por fracções de segundo, retomando a minha leitura, que o senhor viesse de alguma manifestação de ex-combatentes reformados. Mas não me recordei de ter escutado alguma coisa sobre o assunto.

O senhor sofria de problemas auditivos. Era perceptível, como vim a confirmar mais tarde. Falava muito alto, muito alto mesmo.

Estava então eu a ler o meu livro, curiosamente uma história onde a trama se passa, parte dela, no comboio; «A rapariga no comboio», quando me senti observado. Retirei a minha atenção da leitura e, levantando ligeiramente a cabeça, rodei-a para a direita; a pouco mais de quinze centímetros de mim, lá estava ele, o GNR octogenário com um odor a álcool, a observar-me.

- Você gosta de ler! - constactou num tom de voz elevado e com um bafo que quase me deixou em coma alcoólico.  

Olhei a carruagem de soslaio. Fez-se silencio e todos os olhares desaguaram ali, no espaço que eu ocupava e que aquele homem invadira.

- Você gosta de ler! - repetiu, ao que anuí, pensando que a minha confirmação o fizesse regressar ao seu lugar na carruagem. Mas não! Continuou - Eu sou poeta! Em França escrevi poemas e romances.

Fiz uma cara de «muito bem, parabéns.». Ele não desistiu;

- Então o que está a ler? - questionou-me, ao que lhe mostrei a capa do livro. Soletrou-o e disse-me - Muito bom!

Fiquei na expectativa de que tivesse saldado a sua curiosidade e regressasse ao seu lugar. Os olhares da carruagem não desviavam do meu espaço e eu tentava ser cordial com o senhor, sem no entanto lhe dar espaço a mais conversa. 

Foi então que aconteceu. Ele ainda não saciara a sua fome de cusquice e avançou com a frase;

- Você vive onde?

Fiquei a olhá-lo, nem sei se espantado com a forma directa de cusquice, se pela pergunta em si. Como não respondi de imediato, voltou a colocá-la;

- Você vive onde?
- Tem alguma coisa a ver com isso? - respondi-lhe em tom de pergunta, ao que ele disse;
- Hã?! Sesimbra? - Não respondi, insistiu. - Hã? Onde é que mora?
- Você não tem nada a ver com isso. - disse-lhe
- H~? Coimbra?

Toda a carruagem nos olhava. Ao aperceber-me que estava a chegar ao meu destino de chagada, levantei-me e disse;

- Desculpe, tenho de sair aqui.

Naquele momento os olhares desprenderam-se de nós e fiquei com a sensação que toda aquela gente estava há uma infinidade de tempo com a respiração presa e que naquele momento a tinham retomado.

- António, anda para aqui. - disse-lhe a senhora que o acompanhava, enquanto lhe puxava pela manga do casaco.

O comboio parou, as portas abriram-se e saí. Terminava ali mais um dia de histórias e estórias.   

domingo, dezembro 06, 2015



A idade é realmente um fenómeno que nos vai transmitindo conhecimento, com as vivências que vamos encontrando pelo caminho, sejam elas boas ou menos boas.

E se lá longe olhei, por vezes, alguns assuntos com a razão de um adolescente sem conhecimento de causa e com uma educação replecta de ausências, diálogo, chamadas de atenção, carinho e afecto que nos leva a tentarmos meditar sobre este ou outro tema, com o passar desses anos, com as chapadas da vida, muitas delas sem que estivesse preparado, fui crescendo, desenvolvendo anti-corpos, conhecimento e modo de ser e estar que se iam adaptando ao percorrer dos carris que me iam acompanhando.

Se fiz as melhores escolhas? Não, claro que não.

Fiz as escolhas que a minha razão, quão traiçoeira me foi, em momentos, me apresentava. Fiz as escolhas que uma mente que teve de aprender sozinha faria. As minhas escolhas. Assumi-as, agarrei-me a elas e resolvi-as.

Hoje, à distância, percebo e tenho a humildade de compreender que o meu caminho nem sempre foi fácil, muitas vezes por culpa própria, mas tantas outras por culpa alheia. Mas fiz o meu caminho. E com a aprendizagem que adquiri, nas minhas caminhadas e páginas da vida, transmito-as a quem o devo fazer, a quem julgo que o devo fazer. Por vezes não da forma mais simpática, mas faço-o.

Dizem alguns que o meu feitio é mau. Eu digo que é sincero, temperamental, certamente, em alguns momentos, mas sincero, amigo e sem rancor camuflado.

Apesar de conhecer tanta e tanta gente, muita gente mesmo, por vezes olho ao redor e vejo uma carruagem vazia de vozes, sentimentos, emoções. Vejo uns carris que não levam ninguém.

A idade é realmente um fenómeno fantástico, não é no entanto um posto, como tantos alegam. Se os nossos conhecimentos são infindáveis, a nossa forma de estar deve ser sempre enquadrado com o respeito por nós mesmos.

segunda-feira, novembro 23, 2015

segunda-feira, novembro 16, 2015


Viajar de comboio, cada dia é uma aventura. Diversas são as histórias que se cruzam, conversas distintas em cada assento. Bolhas isoladas sem paredes de retenção de som, fazem ecoar pela carruagem as mais distintas considerações.

Dois bancos mais adiante do meu, um grupo de três adolescentes conversavam, num destes dias, sobre as suas aventuras e desaventuras diversas, atritos e amizades, uma delas num permanente fungo nasal se retenção de um muco que não tinha.

Mais atrás, num tom de voz elevado, sem qualquer cuidado de resguardo de informação, permitindo que todos escutassem, uma senhora na casa dos quarenta, falava ao telefone sobre vida alheia e outras dores. Falava com alguém que se queixava doer-lhe algo, pois a determinado momento, bem audível, comentou:

"O que andou você a fazer esta noite para lhe cair o músculo? Devem ter ca sido umas lindas posições, devem."

Mais adiante, três pessoas, alternadas nos lugares, isolam-se do meio e devoram páginas de livros, consumindo as letras, as palavras e as frases.

Olhando com os meus ouvidos toda aquela parafernália, volto a mergulhar nas páginas do livro que estou a ler e torno-me ausente, camaleónico, invisível. Sigo a viagem numa leitura atenta, transferindo-me para o local da acção.



quarta-feira, novembro 11, 2015


O que têm as estações de caminhos-de-ferro e os comboios haver com leitura, gosto pela leitura, tempo de leitura e a própria leitura? Digo eu, no meu devaneio, que tem tudo haver! Ou seja, cada vez que questiono alguém, ou semi-alguém, se gosta de ler, a resposta é, variavelmente, que sim, mas que não há tempo.

Pois bem, descobri onde se pode ler, sem pensar no tempo ou até mesmo o avaliar, uma vez que ele, o tempo, de certa forma, pára. Quem se desloca de comboio para o trabalho ou escola, tem a sorte de utilizar um meio de transporte, o único, talvez, que permite uma enorme liberdade de movimentos, tempo de deslocação sem necessária atenção ao caminho, avisador de chegada, entre outras situações.

Quem se desloca de comboio, dispõe desse tempo que diz não ter, de uma bolha de isolamento que nos permite viajar par além daqueles carris, daquelas carruagens, daquelas janelas. E quem aproveita aquele tempo para ler, está a valorizar a sua riqueza intelectual, emocional e de capacidade de sonhar, viajar, imaginar.

Ler é crescer. Crescer no sentimento, na emoção, na capacidade de oralizar e essencialmente na competência de saber ouvir.