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sábado, setembro 03, 2016

Soldado




Partiste num adeus confuso
Naquela manhã ao acordar
e contigo levaste prosas e certezas
Sonhos, magoas e no luar
Juramos amor eterno, ao sol
Paixão futura, tu areia e eu o mar.

E no livro que escrevemos
Na capa que desenhaste
O fim não soube anunciar
O fim não soube contar
O fim não se pode ler e amar.

Largaste a caneta antes do raiar
Onde as palavras foram de sabão
Que se desfizeram nas lágrimas secas,
Nas lágrimas sentidas de um soldado, ladrão.

A luta terminou num incentivo, ataque
Na epopeia vindoura de sentimentos
Na busca de um Porto Sentido.

No caminho de ondas velejo agora só, perdido
Perdido ao vento, agasalhado nas rajadas
Entorpecido nas marés, grandes vagas.

Abri os braços e elevei-me aos céus,
Fechei os olhos e vi galáxias,
Cosmos de sensações novas à deriva.

Perguntaste-me, um dia, amiudes
Se sabia controlar meus sentimentos
E eu,  eu respondi-te sem medo
Na razão e na certeza
Que sei amar os momentos.

E num voo picado te entregas
E num mergulho de vertigem me entrego
E tu em mim te pegas
E eu em ti me pego.

Naquele adeus estranho e confuso
Naquele momento de olhar embargo

Deixo-me dormir, acordado.

sábado, abril 30, 2016

Puta-que-pariu, Foda-se, Caralho!
- Não digas isso, ou melhor, não escravas isso que há crianças a ler e depois vão repetir, ou há pessoas mais pudicas que não aceitam que digas esses palavrões. Não escrevas que tamanhos palavrões, porque não fica bem e vão-te apontar o dedo e dizer que és mal educado e que não dás bom exemplo aos teus filhos. Anda, apaga!
- Apago uma merda. Digo e repito; puta-que-pariu, foda-se, caralho! Digo e repito, porque ninguém me pode acusar de ser mal educado ou não dar o exemplo. E se alguém o fizer, mesmo aqueles falsamente pudicos, que entre as quatro paredes fazem bem pior do que eu estar a escrever estas palavras; sim, aqueles que aos olhos da sociedade são tão bem vistos, exemplos a seguir, supra-sumos da educação e do saber estar, mas que trancada a porta, batem na mulher, nos filhos, no cão e na sogra, se a velha pensar em meter os cornos onde não é chamada.
- Mas que revolta é essa, homem!?
- Não é revolta. É um sentimento que não sei explicar... um sentimento que se me entranha ao assistir a algumas merdas. Um sentimento, por vezes, de impotência.
- Mas apaga os palavrões. Vá lá!
- Não, não apago. E digo mais, puta-que-pariu a merda das doenças que levam os Homens bons, que lhes infernizam a vida, que os fazem olhar o passado e ver um vazio. Puta-que-pariu os filhos-da-puta que passam a vida a foder os cornos a quem não devem, em vez de baterem com os deles na parede. Puta-que-pariu os filhos-da-puta que se acham superiores aos demais. Caralhos fodam a miséria daqueles que não têm possibilidades de serem alguém, alguém digno.
- Mas homem, falas de quê?
- Falo dos desgraçados que dormem no meio das canas e têm de mijar e cagar no meio das ervas, no orvalho da manhã, com as calças na mão e que nem sabem se vão colocar alguma comida na boca. Falo daqueles que não escolheram ter uma vida miserável, que são atingidos por doenças terminais, que estão expostos a médicos incompetentes, é verdade que nem todos, mas há muitos que são. Falo dos que têm de emigrar, fugir do seu país, deixar de contribuir para a riqueza do país que o viu nascer e não lhe dá o braço, por incompetência de uma classe politica soberba e protegida por uma imunidade desprezível.
_...
- Mas a minha esperança, é que há sempre uma lampada que se acende, quando tantas outras se apagam.

domingo, outubro 11, 2015



"Onde ele estava, eu ia. Onde eu ia, ele estava. Eramos os irmãos gémeos de barrigas e pais diferentes."   -    in "Aurélio, o sem-abrigo"


domingo, agosto 09, 2015

Cartas de amor

A ida para a escola veio a revelar-se uma enorme vantagem no campo afectivo. Aprender a escrever foi um salto exponencial na possibilidade de contacto, recorrendo ao silêncio, mas com a possibilidade de transmitir emoções.

O segundo ano de escolaridade do ensino básico, na ocasião chamado de segunda classe, com o saber adquirido ao longo do ano anterior, já se ia conseguindo criar algumas frases, ainda que pequenas. Entre mim e a Raquel havia uma aproximação tímida, envergonhada e escondida um do outro, pelo menos no discurso directo, pois no discurso do mensageiro «Ela diz que gosta de ti» e «Ele diz que gosta de ti». Deste passo à escrita foi um salto enorme.

A sala de aula era um pré-fabricado a que nós chamávamos de galinheiro. A classe era composta por vinte alunos, rapazes e raparigas. A sala tinha duas filas de sete secretárias, daquelas em madeira com tampo inclinado e que dava para dois alunos. A Raquel estava na quarta carteira da fila do lado esquerdo, sentada à direita e eu na quinta carteira do lado direito, sentado no lugar da esquerda. O primeiro bilhete de namoro foi ela quem o enviou. «Gosto de ti», dizia, ao que eu respondi, num outro bilhete, «Também gosto de ti». O método de envio era simples. Quando a professora estava distraída ou a escrever no quadro de ardósia, atirávamos os bilhetes um para o outro, rente ao chão. Bilhetes que passaram a ser cartas, com o avançar do tempo. Cartas que eram guardadas em casa, numa gaveta, supostamente longe da curiosidade da minha mãe que, vim a saber mais tarde, as leu. Um dia, numa dessas cartas, a Raquel escreveu «No intervalo quero um beijo» e eu, todo atrapalhado, mas cheio de coragem, quis dar esse beijo. Mas quis dar tantos que acabei por não dar nenhum.


Quando o ano lectivo terminou, fiquei a saber que ia mudar de cidade. Ninguém me avisou com tempo, para que me pudesse despedir. As minhas aventuras amorosas tinham terminado ali, deixando para trás uma namorada sem lhe ter dito que para o próximo ano já lá não estaria.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Estórias

Entrei num livro de estórias.
Acedi sem senha, até porque não era necessário, a um volume de experiências sensações, sentimentos, cada um diferente do outro.
Dos tantos títulos diferentes, das diversas capas circulantes, nenhum li. Apenas um escrevi...o meu!
Estórias, muitas estórias. Alegria, tristeza, preocupação, euforia, relaxamento.
Entrei num livro de estórias e lá juntei a minha.
Entrei num livro de estórias e sentei-me numa das linhas do índice. Olhei à minha volta e vi tantas outras estórias que naquele espaço, sentadas ou em circulação, encerravam em si, com um trancado cadeado, a sua estória de vida.
Naquele Centro Comercial vi olhares que se perdiam num horizonte longínquo. Vi rasgados sorrisos visuais.
Naquele livro de estórias vi olhares solidários. Almas perdidas no tempo, estórias descompassadas.
Alguns contos de fadas, pricipes e princesas corriam de um lado para o outro.
Naquele centro Comercial, ali sentado naquela mesa a observar, eu era apenas mais uma estória entre as muitas que enchiam aquele índice.