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sexta-feira, julho 10, 2020

Um pensamento



A vida é um caminho, por vezes bem alcatroado, outras vezes replecto de incertezas e obstáculos. Mas... quem é que não gosta de um bom todo-terreno? Apenas teremos de saber escolher as rodas certas quando o rumo se depara mais acidentado.

segunda-feira, março 30, 2020

Ensaio sobre o amor - 8 - Capítulo 2


Capítulo 2

                Recordara-se que prometera, agarrado ao caixão da mãe, que não iria fraquejar e sim lutar com todas as suas forças para ter uma vida minimamente digna. Chorou num pranto seco, emoções sem fim, murmurando junto da urna como se ao ouvido de Manuela contasse um segredo, como anteriormente fazia na sua cumplicidade umbilical. «Prometeste não deixar-me e agora vais partir. Que vai ser de mim? Sim, vou ser forte e lutar, mas também vou ser mudo e pouco falar».
Desde esse dia poucos foram os que escutaram um som sair das cordas vocais daquele rapaz que tantas histórias, a todos, habituara a contar. Nem mesmo quando aquele homem lhe disse «Amigo, não faça isso!», ele reagiu ou tentou argumentar a sua dor.

quinta-feira, março 26, 2020

Ensaio sobre o amor - 5


ANTÓNIO CEBOLA


- O meu filho! O meu filho! O meu querido filho! – pensei, ao escutar os primeiros choros do recém-nascido – Será menino ou menina? – indaguei-me.
- Parabéns! – congratulou-me Emília com um grandioso sorriso no rosto – Tem ali um belo rapaz.
- Um menino? – uma manifestação de enorme felicidade anunciou-se-me no rosto – Um filho macho! – murmurei.

domingo, março 22, 2020

Ensaio sobre o Amor - 1 - Introdução


Introdução


                A vida é um puzzle de experiências, vivências, opções, alegrias, frustrações, contendas e avidezes. É um caminho nem sempre plano e por vezes replecto de obstáculos e amarguras, os quais teremos de enfrentar, em tantas ocasiões, de braço dado com quem nos quer corroborar e ajudar a conquistar o trilho; outras vezes sós. Existem momentos ao longo do caminho onde a escuridão é total, não vislumbramos soluções, convencemo-nos que estamos perdidos e equacionamos a desistência ao caminho, à luta. Alguns fazem-no!

terça-feira, dezembro 03, 2019

Momentos - Uma descrição vale mil imagens


Perguntaram-me, em modo de sugestão -  que agradeço – porque não ornamento os meus textos com uma imagem! Segundo a pessoa, alegava – e bem – que com uma imagem anexa ao texto, este ficaria mais apelativo. Certamente está correcta essa observação, no entanto a ideia segue exactamente em sentido oposto; se uma imagem vale mais do que mil palavras, porque não com algumas palavras não proporcionar mais de mil imagens?
                Ao escrever momentos, de uma forma mais simplista ou de uma forma mais requintada, o que vou proporcionar a quem ler - tendo em consideração a experiência de vida e expectativas de cada um – criar a sua própria imagem do momento. Desta forma não manipulando a rede neuronal de ninguém com uma imagem pré-concebida, permitirei que cada um dê asas à sua imaginação e significado ao momento.
                       Afinal, uma descrição pode valer mais de mil imagens.

domingo, novembro 24, 2019

Momentos - O Malabarista


Mantêm-se expectante - tal como na vida, de quem aguarda um dia melhor, um dia de cada vez, a cada dia que passa, que um melhor dia chegue a cada raiar do dia – junto ao semáforo, que o vermelho acenda para os veículos, impedindo-os de avançar – como o ditador ao povo que quer a sua liberdade de movimento e auto-determinação – mas que lhe proporcione breves segundos que podem marcar uma vida, possa também ele – por vezes ela e outras tantas vezes ele e ela – com sorrisos no rosto estampados, sorrisos de prazer e angustia, num mesclado de agridoce, deslizar até meio da passadeira – porque na verdade aquele é o meio caminho entre viver e sobreviver e aí mostrar aos juízes, muitos deles com expressão de asco – que se mantêm longe do frio, da chuva, do sol e do calor, todo o seu potencial de malabarismo e habilidade, deambulando depois entre o emaranhado de viaturas de motores ronronantes - ávidos de asfalto, perfeitas bancadas andantes – sempre com o sorriso tatuado no rosto, um chapéu de trapos gastos numa mão e as maçarocas na outra e um permanente “obrigado” – mesmo quando a moeda não tilinta no interior do concavo – aguardando a aprovação dos que por ali assistem. Depois, bem depois tudo recomeça, uma e outra vez.


quinta-feira, agosto 15, 2019

#Somos o tempo que temos

Somos um conjunto de tempo,
Inacabado.
Um cronómetro decrescente,
Não parado.
Somos a perfeita imperfeição,
De cada lado,
Somos o pensamento,

sábado, abril 15, 2017

# Reflection


Each day is a day, and if we think of specific objectives with activity scheduling, it is pure speculation that, in general terms, by event statistics, may occur, but occasionally covered by terms not considered at the outset, change all Planned projects and action plans. The accessory is no longer relevant in context; The time comes to an end. The chronometer stops, the hourglass dries and the cuckoo loses his song.

sábado, março 11, 2017

# Este tecto não é meu - A relação com o pai


- Qual é a tua relação com o teu pai?
- A minha relação com o meu pai? Não se pode dizer que tenha havido uma relação entre nós os dois. Tipo… pai e filho, estás a ver! Foi apenas aquela cena do sangue e do nome. Penso, muitas vezes, agora à distância, que ele me fez, apenas, para mostrar à sociedade merdosa onde sempre se movimentou e que acabou por o desprezar, que era capaz de fazer um filho. – olhou o infinito, primeiro, depois olhou Cristóvão – Esqueceu-se foi que também deveria saber educa-lo. E acredita, meu amigo, educar um filho não é carregar-lhe os bolsos de dinheiro, colocar-lhe uma farpela de marca sobre o lombo, todo lindinho e já está. E o afecto? E o carinho? E a atribuição da responsabilidade? Onde ficou aquele abraço e beijo ao deitar?

sexta-feira, dezembro 09, 2016

# Numa caminhada de sonho


No galopar de dois pares de patas,
O silêncio invade-nos e logo,
Logo de seguida,
É violado por um chilrear de pássaros,
Por um cantar infinito,
Por um encanto que desconhecíamos podermos ter.

# Tempo de vida

A vida começa no momento em que o mais rápido dos espermatozoides invade o óvulo, até ao momento em que o batimento cardíaco colapsa; pelo meio podemos fazer um rolhão de merdas.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

segunda-feira, setembro 12, 2016

terça-feira, agosto 02, 2016

Para pensar, uma ou outra vez.


Um condutor entra com o seu carro preto, com as luzes apagadas numa rua onde não há nenhum candeeiro aceso, nem nenhuma casa com alguma luz acesa.

Subitamente, atravessa-se à sua frente um gato preto;  ele consegue vê-lo e travar a tempo de o evitar.

Sabe como  isso possível ??

domingo, junho 26, 2016

RESPECT




Por mais que se defenda o contrário, principalmente a classe afectada, a verdade é que no meio escolar, por vezes, e quero apenas ali incluir os professores que, de alguma forma se sintam frustrados pelo cargo que desenvolvem, quem se encontra a leccionar perante uma ou mais turmas, tem saídas ou comportamentos reprováveis, perante algum(s) aluno(s), e nunca na linha de orientação que se exige a um profissional preparado, que se espera que seja, quem tem como função complementar o difícil processo de educação de uma criança ou jovem; complementar com conhecimentos úteis, que proporcionem a essa criança ou jovem enriquecer-se, aumentar a sua auto-estima e tornar-se um elemento activo da sociedade, mais enriquecido, mais social e disponível para colocar o seu altruísmo defronte de qualquer adversidade.

A moldagem de carácter de uma criança ou jovem, começa, sem qualquer ponta de dúvida, em casa; com os ensinamentos dos pais, mas principalmente com as suas demonstrações; diz-se que "os filhos são o espelho dos pais". Se até recentemente esta poderia ser uma afirmação válida e correcta, hoje ela é, apenas, parte do puzzle; uma grande batalha para alguns pais.

Qualquer pai ou mãe deseja que o(a) seu filho(a) tenha como princípios básicos de vida e educação, o respeito, a humildade, o altruísmo e o carácter. Estes valores conseguem-se através da transmissão dos mesmos, ou seja, estes valores de vida não são compráveis. Não é possível ir a uma loja e comprá-los. E como tal não é possível, ou são os pais a conseguir, de alguma forma, passar estas virtudes aos seus filhos, ou tais serão, dificilmente, desenvolvidas por eles.

Acontece que, com a evolução dos tempos; e nem sempre evolução é sinónimo de progresso, as crianças e jovens vão olhando cada vez mais para fora do circulo familiar e aí acabam por encontrar alguns ídolos, pelos quais ou nos quais, pela força do marketing associado, adoptam como referência e um exemplo a seguir. Se noutros tempos, naqueles já idos, a filha olhava para a mãe como uma referência de vida, ou o neto para o avô, hoje a realidade é bem distinta; tanto rapazes como raparigas procuram nos seus ídolos externos, um ponto de exemplo para a sua vida, utópica, podendo muitas vezes a sua personalidade e carácter serem moldados a esse mesmo ídolo; forma de vestir, falar e actuar.

Esse ídolo universal sabendo que o é de milhares de crianças e jovens, tem a obrigação moral, social e institucional de apresentar uma postura capaz de transmitir, a quem para ele olha, uma índole positiva e de referência, altruísta.

Há quem defenda que a figura pública que se expõe e quer expor, porque só dessa forma consegue a fama que a levará fazer com que os abutres capitalistas se aproximem e invistam em busca de lucro, proporcionando de alguma forma uma vida faustosa à tal figura pública, também é um ser humano, com direito aos seus erros, etc...; esta é uma verdade que não é tão verdadeira como pode inicialmente parecer.

O facto de serem seres humanos e sujeitos ao erro é uma realidade que não é tão verdadeira como pode inicialmente parecer.  O facto de serem seres humanos e vulneráveis ao erro, é uma realidade que deveriam controlar, uma vez que sabem, também, que esse erro vai influenciar os seus seguidores; não é pelo facto de ter muito dinheiro que o ídolo pode fazer o que quiser, com essa mesma justificação, de que "tem dinheiro para pagar o estrago".

 Ainda observando o momento menos feliz de CR7, ao retirar o microfone de um repórter da CMTV e atirando-o para dentro de um lago, não está em causa o valor monetário do aparelho; afinal, o Cristiano tem dinheiro para pagar uma centena deles. O que está em causa é a atitude, reprovável, o exemplo que transmite e as consequências sociais que poderão advir daquela imagem. Sim, porque o Cristiano pode retirar uma ferramenta de trabalho de um profissional, inutilizá-la, condicionando o trabalho que está a ser desenvolvido e ainda é protegido por agentes da autoridade; que exemplo positivo está o CR7 a transmitir para os milhares de seguidores, crianças e jovens? - Nenhum! - Mas pior ainda é o facto de pais, diante dos seus filhos, nas redes sociais, aprovarem aquele comportamento, reforçando-o positivamente, sob o pretexto de aquele canal de informação, supostamente, o que já foi negado, ter emitido uma reportagem sobre o pai do Cristiano, a qual ele não gostou.

Quando um destes dias, na escola, um daqueles professores que se encontram frustados com o sistema, tiver uma saída menos feliz e fizer um comentário sobre o pai ou a mãe de um aluno, este passa a ter o direito de pegar no material de trabalho desse professor, o computador portátil, por exemplo ou o I-phone, e lançá-lo janela fora, da sala de aula, sob o pretexto de aquele professor ter proferido algo que o aluno não gostou e o facto do seu pai ter dinheiro para pagar os estragos, se assim tiver de ser.

Este aluno jamais poderá ser castigado, uma vez que, tal como o seu ídolo, teve uma reacção aprovada pela sociedade e, certamente, os seus pais terão dinheiro para pagar o estrago. Afinal, o que teve como causa tal comportamento, foi o comentário menos feliz à pessoa do pai/ mãe do aluno. Com algum azar, o professor ainda vai ser alvo de um inquérito e processo disciplinar, apenas porque os pais têm algum poder na sociedade.

Serão estes os valores e princípios que queremos que rejam a educação dos nossos filhos? Pelo que posso constactar nas redes sociais, comentários de rua e afins, sim.

Pois eu não!

Nada tenho contra o Cristiano nem contra a CMTV, mas penso que a UEFA e a FPF, que tanto alegam e promovem o "RESPECT", neste caso específico, ficaram, também elas, mal na fotografia. Se aquele reportar ali está, é porque tem uma credencial da UEFA para tal e a autorização da FPF.

sábado, abril 30, 2016

Puta-que-pariu, Foda-se, Caralho!
- Não digas isso, ou melhor, não escravas isso que há crianças a ler e depois vão repetir, ou há pessoas mais pudicas que não aceitam que digas esses palavrões. Não escrevas que tamanhos palavrões, porque não fica bem e vão-te apontar o dedo e dizer que és mal educado e que não dás bom exemplo aos teus filhos. Anda, apaga!
- Apago uma merda. Digo e repito; puta-que-pariu, foda-se, caralho! Digo e repito, porque ninguém me pode acusar de ser mal educado ou não dar o exemplo. E se alguém o fizer, mesmo aqueles falsamente pudicos, que entre as quatro paredes fazem bem pior do que eu estar a escrever estas palavras; sim, aqueles que aos olhos da sociedade são tão bem vistos, exemplos a seguir, supra-sumos da educação e do saber estar, mas que trancada a porta, batem na mulher, nos filhos, no cão e na sogra, se a velha pensar em meter os cornos onde não é chamada.
- Mas que revolta é essa, homem!?
- Não é revolta. É um sentimento que não sei explicar... um sentimento que se me entranha ao assistir a algumas merdas. Um sentimento, por vezes, de impotência.
- Mas apaga os palavrões. Vá lá!
- Não, não apago. E digo mais, puta-que-pariu a merda das doenças que levam os Homens bons, que lhes infernizam a vida, que os fazem olhar o passado e ver um vazio. Puta-que-pariu os filhos-da-puta que passam a vida a foder os cornos a quem não devem, em vez de baterem com os deles na parede. Puta-que-pariu os filhos-da-puta que se acham superiores aos demais. Caralhos fodam a miséria daqueles que não têm possibilidades de serem alguém, alguém digno.
- Mas homem, falas de quê?
- Falo dos desgraçados que dormem no meio das canas e têm de mijar e cagar no meio das ervas, no orvalho da manhã, com as calças na mão e que nem sabem se vão colocar alguma comida na boca. Falo daqueles que não escolheram ter uma vida miserável, que são atingidos por doenças terminais, que estão expostos a médicos incompetentes, é verdade que nem todos, mas há muitos que são. Falo dos que têm de emigrar, fugir do seu país, deixar de contribuir para a riqueza do país que o viu nascer e não lhe dá o braço, por incompetência de uma classe politica soberba e protegida por uma imunidade desprezível.
_...
- Mas a minha esperança, é que há sempre uma lampada que se acende, quando tantas outras se apagam.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Este tecto não é meu



Ser um sem-abrigo não é uma forma de estar na vida e jamais deverá ser um hábito de vida. Ser um sem-abrigo é, para muitas pessoas, a batida no fundo de um poço seco sem rede de apoio ou arnês de suporte, é a descrença num futuro melhor, a humilhação social, o início da atroz epopeia sem meta anunciada ou face identificada.

               Pode, também, pensar-se que ser um sem-abrigo jamais será, para alguém, uma opção de vida. Pensarão assim, essencialmente, os que dão primário valor aos bens materiais, à ostentação social e ao status. Mas estão errados, esses pensamentos. Há quem se entregue à condição, levados pelas maiores variedades de razões, muitas delas traiçoeiras de uma vida que para alguns deixa de fazer sentido, no alinhamento tipo de uma sociedade desenvolvida.

               Quando abordamos este tema tão sensível como é o dos sem-abrigo, surgem de imediato duas questões pertinentes; quantos são os sem-abrigo em Portugal e o que é que se faz para combater tão nefasto fenómeno social?

               Peguei no telefone e tentei obter resposta a estas e outras tantas questões que me foram surgindo, em catadupa, na minha inquietude. As respostas obtidas foram vagas, vazias de conteúdo e nada concretas. Estimavam as informações obtidas que, em Portugal, seriam cerca de 5000 os sem-abrigo e que, o que se vai fazendo, nada é para terminar com o fenómeno, mas sim e apenas para minimizar as consequências de quem por ele foi arrebatado.

               Tem consciência a Segurança Social que os valores apresentados estarão muito aquém da realidade e que é graças à boa vontade de dezenas de IPSS e seus voluntários que, disponibilizando o seu tempo, permitem uma intervenção nas ruas, levando alguma comida a quem nada tem ou tudo perdeu.
               Não satisfeito com estas e outras respostas, resolvi ir para o terreno e procurar estórias contadas na primeira pessoa.

               Lisboa é uma biblioteca replecta de páginas por ler. Desconhecedor da realidade para lá daquela que se encontra à vista de todos e que por muitos (maioria) é desprezada, talvez por pudor ou simplesmente por um terror camuflado de estarem a vislumbrar algum reflexo futuro, quis saber como é a vida de um sem-abrigo. O seu dia-a-dia, se assim lhe podem chamar.

A Solidão

               Uma das marcas que caracteriza um sem-abrigo é a solidão. A profunda solidão. Chegam a estar anos sem falar ou pelo menos sem conversar com alguém. Fecham-se numa bolha apenas sua, impenetrável, inalcançável, isolando-se de tudo o que seja ser humano ao seu redor. Deixam-se conduzir para um campo emocional altamente degradado, sóbrio e longínquo que os leva, em casos mais extremos, ao suicídio.

As diferenças

               Para o comum, egoísta e egocêntrico, mortal, um sem-abrigo é muitas vezes confundido com um pedinte ou com um toxicodependente. Mas a verdade é outra. Um pedinte ou um toxicodependente pedem no discurso directo, sem pudor ou qualquer constrangimento. Um sem-abrigo, quando mendiga, fá-lo no discurso indirecto, nunca abordando o transeunte, mas aguardando que a sensibilidade e humanismo de quem passa o leve a depositar uma moeda na pequena lata de salsichas, num boné gasto pelo tempo ou na caixa de sapatos encontrada junto a um contentor do lixo, quando buscava algo para comer.

               Os pedintes e os toxicodependentes, quando a noite cai, sabem que, grande parte deles, têm um tecto que os aguarda, em melhores ou piores condições. O sem-abrigo apenas sabe que, os únicos tectos que poderá encontrar, serão os de alguns vãos de escadas o u acessos a edifícios, os tabuleiros de viadutos, caixas de papelão ou em muitos casos o céu, umas vezes estrelado, outras chuvoso.~

Coimbra dos meus amores

               Senti, após alguma investigação na capital Lisboa, procurar outras paragens, outras estórias, algo que pudesse mexes com a altivez que cada um de nós ostenta, ainda que em muitos casos de forma dissimulada e hipócrita. Escolhi a cidade de Coimbra. Efectuei alguns contactos e consegui chegar à fala com um homem a quem vou chamar de Aurélio. Um sem-abrigo que deambula pela cidade capital de distrito, vende o jornal nos semáforos ou arruma carros. Não se considera arrumador, fá-lo apenas para queimar algum tempo que diz não contabilizar.

De “riquinho” à rua

               Encontrei-me com Aurélio, um sem-abrigo de 39 anos de idade. Escolhi falar com Aurélio, pois ele é um caso em que ser um sem-abrigo foi uma opção de vida. Mas nem sempre foi assim. Quando em pequeno, Aurélio era conhecido como o “menino riquinho”. Segundo me contou, tal devia-se ao facto de, desde tenra idade, os seus pais o deseducaram, uma vez que, vindo ele do seio de uma família conimbricense abastada, a exigência social do meio onde estavam integrados associada ao desinteresse familiar de um pai ausente, prepotente e mulherengo, fez com que possuísse elevadas quantidades de dinheiro nos bolsos. O acesso a todo tipo de experiências estava facilitado e sem controlo de um adulto.

               Confidencializou-me que a sua opção de se tornar um sem-abrigo passou, também, pela dor de ter abdicado de um grande amor num determinado período da sua vida

O álcool e as drogas 

               Segundo Aurélio, as más companhias, o álcool e as drogas surgiram de forma natural e um estilo de vida de alto risco. «Quando tens dinheiro nos bolsos, tens tudo e todos ao teu redor.», diz. Segundo ele, o dinheiro fácil abriu-lhe portas que, de outra forma, jamais teria acesso. Confessa ter participado, enquanto menor, em jogos de sorte e azar. «O dinheiro era a chave de entrada

               Aurélio esteve preso por tráfico internacional de droga, quando foi um correio de droga e viu morrer diante dos seus olhos o seu melhor amigo. O irmão que nunca teve. Foi no Sobral Cid, hospital psiquiátrico, que esteve internado a determinada altura da sua vida. Desmoronou com a fortuna da família; «Juntamente com as mulheres que o meu pai sustentava nas suas viagens de negócios.», diz, com amargura na voz.

               Hoje afirma ter largado as drogas. Já o álcool, esse ainda lhe serve de cobertor, principalmente nas noites mais frias. Amante de animais, faz-se acompanhar de uma cadela que adoptou, a Luna, após a ter encontrado abandonada e amarrada a um contentor do lixo. Segundo ele, tem na Luna a sua melhor companhia. E por que assim é, vê-se muitos sem-abrigo sempre acompanhados de quem jamais os abandonará.

A comunidade dos sem-abrigo

               Não me bastava o relato na primeira pessoa. Necessitava de algo mais próximo da realidade, ainda que Aurélio ilustrasse bem a sua experiência de mais de década e meia, arrebatadora, replecta de emoções, sensações e sentimento. Fizera de tal forma intenso este seu relato, que consegui desenhar o filme da sua vida no meu pensamento.

               Senti que tinha de ir, realmente, para o mundo deles, diluir-me neles e viver, ainda que fosse uma noite apenas, as suas amarguras, frustrações e revoltas. Sempre tive a noção que todas as emoções que viesse a sentir seriam efémeras. Lembrá-las-ia para sempre, é certo, mas no meu regresso ao meu mundo, teria sempre um tecto que me aguardava, uma banheira e água quente. Ainda assim, avancei.

À noite, nas trevas

               Fomos deambulando pelas ruas da baixa de Coimbra. A noite caíra e com ela uma neblina gélida, húmida e fustigante. As ruas, mal iluminadas por umas lâmpadas de cor âmbar, proveniente de um cansaço do tempo, iam ganhando um aspecto sinistro, pardo, de elevado suspense, medonho. Aqui e ali, iam, carcaças debilitadas por uma sorte rude e traiçoeira, encostando-se embrulhadas em papelão, desaparecendo no seu interior, como ratos que se esquivam, após uma última olhada de vigia.

               «Estamos sempre em alerta.», comentou, continuando «Os mitras quando aparecem só fazem asneira.». Foi num tom de lamento que me contou a história da “Ti Alzira” , como carinhosamente a tratavam, uma senhora de setenta e poucos anos que tombou após ter sido agredida numa noite de trevas, por um grupo de organizado que, por vezes, espalha o terror nas ruas.

               A manhã surgiu e com ela os primeiros raios de sol, mais um dia sem tempo, pois esse já parou no passado. Sentados na escadaria de pedra gasta e polida do acesso à estação nova da cidade, eu e o Aurélio, em silêncio olhávamos a vida de mais um dia a surgir, acariciados pelos primeiros raios de sol, uma ténue aragem e um odor acre proveniente de um rio envelhecido e cansado. A meia-dúzia de metros, estendido no chão, um estudante ébrio.

               Num impulso convidei-o a tomar um pequeno-almoço, comigo, ao que este recusou, alegando que tal não era justo para os outros sem-abrigo da cidade.


               Levantamo-nos e despedimo-nos na promessa de um dia voltar a procura-lo. Quando atravessei a arcada da porta de entrada do edifício da estação, olhei para trás e fiquei a ver aquele homem que se afastava e que, para mim, representava a descrença num estado social com futuro, sem certezas nos seus sonhos de um mundo melhor para os sem-abrigo. Ficaram as últimas palavras que me dirigiu; «Se pudesse, edificava uma estrutura que albergasse os sem-abrigo durante a noite e deles cuidasse durante o dia…”, fez uma pausa, olhou o rio numa profundidade arrepiante e concluiu «…mas isso custa tanto dinheiro e ninguém quer saber de quem nada vale.».


segunda-feira, novembro 23, 2015



Morre-se por tudo e mata-se por nada. Esta é a actual realidade deste planeta que quer ser pacifico, mas que alberga, em si, pequenos energúmenos que insistem em mostrar a sua rebeldia, doentia, é certo, mas rebeldia, que condiciona o prazer de viver, com uma qualidade sigilosa.

Morre-se por tudo e mata-se por nada. É assim que funcionam tantas pessoas que ao abrigo da inveja ou da falta de personalidade, aquela que o dinheiro não compra, actuam. Criam bloqueios sobre o que poderia ser simples. Elevam barreiras sobre o que poderia ser efectuado, mas como não o é por eles, não querem permitir que outros o façam.

Morre-se por tudo e mata-se por nada, carregam-se sacos de pedras e deixam-se apodrecer batatas. É hora de dizer chega, basta. Mas este chega e basta já tem barbas de velho e envelhecido, pois não se consegue superar.

quarta-feira, novembro 18, 2015



Quando a natureza nos presenteia com cores fantásticas e mescladas, deixa-nos sempre agradados.
O Sol destes dias, que nos alegra o inicio do dia, num brilho intenso, ainda que fresco no principio. Uma luz fantástica, brilhante, agradável.
O ar fresco penetra-nos as vias respiratórias e lembra-nos que estamos vivos.
As árvores dançam, à nossa passagem. E nós dançamos, ao passarmos por elas.
E neste final de outono, sem preconceitos, despem-se.






domingo, novembro 15, 2015


De coisas simples é feita a vida de cada um de nós.
Coisas simples, bonitas, práticas, reais e capazes de nos fazerem felizes.
Muitos são os que não valorizam o que têm, é verdade.
Muitos são os que lamentam não terem mais...ou melhor!

De um momento para o outro tudo muda;
Vimos partir quem não valorizamos,
Vimos sair quem não acarinhamos,
Vimos desaparecer quem tanto amamos, mas que não encantamos.

Um dia , cada dia.
Um dia, cada tempo,
Um dia, cada momento,
Um dia...de cada vez!

Saberemos a razão de olharmos e não vermos?
Saberemos acreditar no que não entendemos?
Conseguiremos perceber o que não percebemos ou não queremos perceber?
Conseguiremos agarrar a nossa vontade de saber?

Olhamos para trás e percebemos,
que afinal não entendemos,
que afinal não conseguimos,
que afinal tanto faltamos,
que não atingimos e nem sabemos porquê,
que não sorrimos, abraçamos ou choramos,
que não crescemos,
que não aproveitamos cada momento,
e que morremos.

Saberá o tempo dizer-nos,
ensinar-nos,
compreender-nos?

Fugimos do que não conhecemos e não arriscamos conhecer.
Falamos do que não sabemos e não procuramos nos informar.
Corremos do que não queremos e não tentamos enfrentar.
Enganamo-nos porque tememos o resultado final,
a verdade, a razão, a existência.

Teremos conseguido atingir o objectivo?
Teremos mimado o amigo?
Teremos compreendido a sua decisão,
chama-lo à atenção,
Abraçá-.lo na emoção,
Apoiá-lo na monção?

Devemos parar e meditar,
devemos procurar sem a razão,
devemos escutar sem falar,
devemos observar e ver,
devemos viver, viver, viver,
devemos ser maiores que o coração.

Conseguiremos fazê-lo ou sê-lo?
Conseguiremos valorizar?
Conseguiremos considerar?
Conseguiremos perdoar?
Conseguiremos alcançar?