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sábado, março 11, 2017

# Este tecto não é meu - A relação com o pai


- Qual é a tua relação com o teu pai?
- A minha relação com o meu pai? Não se pode dizer que tenha havido uma relação entre nós os dois. Tipo… pai e filho, estás a ver! Foi apenas aquela cena do sangue e do nome. Penso, muitas vezes, agora à distância, que ele me fez, apenas, para mostrar à sociedade merdosa onde sempre se movimentou e que acabou por o desprezar, que era capaz de fazer um filho. – olhou o infinito, primeiro, depois olhou Cristóvão – Esqueceu-se foi que também deveria saber educa-lo. E acredita, meu amigo, educar um filho não é carregar-lhe os bolsos de dinheiro, colocar-lhe uma farpela de marca sobre o lombo, todo lindinho e já está. E o afecto? E o carinho? E a atribuição da responsabilidade? Onde ficou aquele abraço e beijo ao deitar?

quarta-feira, janeiro 18, 2017

# Socialmente activo ou Ser Social


"Ser social é cool!"

Sim, ser-se social é bastante positivo, uma forma de sustentabilizar a nossa auto-estima com pilares sólidos, repletos de valores e capazes de nos fazer aguentar as vicissitudes da vida de uma forma muito positiva e menos vulnerável; pensa-se!

terça-feira, dezembro 20, 2016

# Riscas, a Boneca



Era uma vez…
            Lembro-me do dia em que a Riscas chegou lá a casa. Foi num domingo, estava sol e fazia calor. Eu estava na minha vida, a passear pelo jardim, quando o pai chegou de carro. O Huguinho, um menino de sete anos de idade, como era seu hábito, também por ali andava, a correr, a pular e a jogar à bola. Ao ver o pai chegar, o rapazito deu uma valente corrida, saltando-lhe para o colo, dando-lhe uma enorme beijoca.

            - Onde está? Onde está? – perguntava, todo excitado.
            - Calma, Huguinho! – disse-lhe o pai, tentando controlar o impulso do filho.
            - Onde está? Onde está? – continuava impaciente.

domingo, setembro 04, 2016

Um caminho sem rumo



O tempo de estrada já o fez esquecer o dia em que partiu: um tempo que o relógio deixou de marcar e só cada nascer do sol indica que mais um dia passou, que mais um pedaço de caminho se prepara para ser calcorreado, por umas botas de solas cansadas.

O raiar do dia marca o paragrafo de mais um capítulo, numa caligrafia arrepiada e um conjunto de letras na formação das palavras e frases mal conjugadas que, sentido, só fazem na interpretação contextual de quem não quer saber ler, não nas linhas, mas nas entre-linhas do quadro que diante anos pintado, morreu num borrão social. «leia mais aqu

segunda-feira, dezembro 28, 2015


Tanta gente boa, sem interesse, com tanta preocupação em proporcionar um momento de bem-estar a quem mais necessita.
Tanta gente que disponibiliza do seu tempo, daquele que vai passando sem voltar atrás, para o colocar à disposição de quem já não conta o tempo a passar.
Tanta gente que é tão pouca, quando muitos mais poderiam ser, a dar o seu apoio incondicional, mas que não o fazem por preconceito.
Tanta gente que está bem, mas que um dia poderá estar mal.
Tanta gente com tantas estórias a serem escritas e com tanto ainda por escrever.

sábado, dezembro 26, 2015



A convite do meu amigo Emídio fui até ao Natal que a Casa ofereceu, uma vez mais, aos seus utentes, pessoas carenciadas, sem rosto, com história, umas melhores que outras, umas menos agradáveis que outras, umas diferentes de outras.

São histórias de vida, histórias que marcam, cada uma, a sua viagem, o seu trajecto, diferentes trajectos que hoje se encontram num entroncamento de pobreza, necessidade, solidão, por vezes e alguma angústia, certamente. Mas encontram-se numa "biblioteca" que acolhe as suas páginas, numa ajuda de vida melhor, que escrita enriquecida e de leitura capaz.

Fui convidado a participar, sob o pretexto de ler uma história aquelas estórias. E contei...penso eu!
Contei a história de uma vida que não conheço o ponto inicial, mas consegui imaginar parte dela e encontrei o ponto actual. Contei uma história que creio ser a de cada uma daquelas pessoas, que diante de mim me escutaram. Contei aquela que espero ser a história deles, ainda que me tenha apercebido das suas dificuldades.

Sabendo da dificuldade em que a Casa tem em conseguir, por vezes, alimentação para chegar a tanta gente, seria fantástico que as grandes superfícies comerciais da cidade pudessem auxiliar, assim como os cidadãos. Seria fantástico que se desenvolvessem esforços para se conseguir uma infraestructura  móvel ou mesmo fixa, capaz de proporcionar um banho quente, diário, aos sem-abrigo e aos carenciados.

Da minha parte uma certeza tenho. Vou desenvolver esforços para conseguir mais e melhor apoio à organização que não tem fins lucrativos. E apelo a todos quantos lerem este texto que o façam também, sem interesses, preconceitos ou vergonha.






Fotos: Carlos Miguel e Casa

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Este tecto não é meu



Ser um sem-abrigo não é uma forma de estar na vida e jamais deverá ser um hábito de vida. Ser um sem-abrigo é, para muitas pessoas, a batida no fundo de um poço seco sem rede de apoio ou arnês de suporte, é a descrença num futuro melhor, a humilhação social, o início da atroz epopeia sem meta anunciada ou face identificada.

               Pode, também, pensar-se que ser um sem-abrigo jamais será, para alguém, uma opção de vida. Pensarão assim, essencialmente, os que dão primário valor aos bens materiais, à ostentação social e ao status. Mas estão errados, esses pensamentos. Há quem se entregue à condição, levados pelas maiores variedades de razões, muitas delas traiçoeiras de uma vida que para alguns deixa de fazer sentido, no alinhamento tipo de uma sociedade desenvolvida.

               Quando abordamos este tema tão sensível como é o dos sem-abrigo, surgem de imediato duas questões pertinentes; quantos são os sem-abrigo em Portugal e o que é que se faz para combater tão nefasto fenómeno social?

               Peguei no telefone e tentei obter resposta a estas e outras tantas questões que me foram surgindo, em catadupa, na minha inquietude. As respostas obtidas foram vagas, vazias de conteúdo e nada concretas. Estimavam as informações obtidas que, em Portugal, seriam cerca de 5000 os sem-abrigo e que, o que se vai fazendo, nada é para terminar com o fenómeno, mas sim e apenas para minimizar as consequências de quem por ele foi arrebatado.

               Tem consciência a Segurança Social que os valores apresentados estarão muito aquém da realidade e que é graças à boa vontade de dezenas de IPSS e seus voluntários que, disponibilizando o seu tempo, permitem uma intervenção nas ruas, levando alguma comida a quem nada tem ou tudo perdeu.
               Não satisfeito com estas e outras respostas, resolvi ir para o terreno e procurar estórias contadas na primeira pessoa.

               Lisboa é uma biblioteca replecta de páginas por ler. Desconhecedor da realidade para lá daquela que se encontra à vista de todos e que por muitos (maioria) é desprezada, talvez por pudor ou simplesmente por um terror camuflado de estarem a vislumbrar algum reflexo futuro, quis saber como é a vida de um sem-abrigo. O seu dia-a-dia, se assim lhe podem chamar.

A Solidão

               Uma das marcas que caracteriza um sem-abrigo é a solidão. A profunda solidão. Chegam a estar anos sem falar ou pelo menos sem conversar com alguém. Fecham-se numa bolha apenas sua, impenetrável, inalcançável, isolando-se de tudo o que seja ser humano ao seu redor. Deixam-se conduzir para um campo emocional altamente degradado, sóbrio e longínquo que os leva, em casos mais extremos, ao suicídio.

As diferenças

               Para o comum, egoísta e egocêntrico, mortal, um sem-abrigo é muitas vezes confundido com um pedinte ou com um toxicodependente. Mas a verdade é outra. Um pedinte ou um toxicodependente pedem no discurso directo, sem pudor ou qualquer constrangimento. Um sem-abrigo, quando mendiga, fá-lo no discurso indirecto, nunca abordando o transeunte, mas aguardando que a sensibilidade e humanismo de quem passa o leve a depositar uma moeda na pequena lata de salsichas, num boné gasto pelo tempo ou na caixa de sapatos encontrada junto a um contentor do lixo, quando buscava algo para comer.

               Os pedintes e os toxicodependentes, quando a noite cai, sabem que, grande parte deles, têm um tecto que os aguarda, em melhores ou piores condições. O sem-abrigo apenas sabe que, os únicos tectos que poderá encontrar, serão os de alguns vãos de escadas o u acessos a edifícios, os tabuleiros de viadutos, caixas de papelão ou em muitos casos o céu, umas vezes estrelado, outras chuvoso.~

Coimbra dos meus amores

               Senti, após alguma investigação na capital Lisboa, procurar outras paragens, outras estórias, algo que pudesse mexes com a altivez que cada um de nós ostenta, ainda que em muitos casos de forma dissimulada e hipócrita. Escolhi a cidade de Coimbra. Efectuei alguns contactos e consegui chegar à fala com um homem a quem vou chamar de Aurélio. Um sem-abrigo que deambula pela cidade capital de distrito, vende o jornal nos semáforos ou arruma carros. Não se considera arrumador, fá-lo apenas para queimar algum tempo que diz não contabilizar.

De “riquinho” à rua

               Encontrei-me com Aurélio, um sem-abrigo de 39 anos de idade. Escolhi falar com Aurélio, pois ele é um caso em que ser um sem-abrigo foi uma opção de vida. Mas nem sempre foi assim. Quando em pequeno, Aurélio era conhecido como o “menino riquinho”. Segundo me contou, tal devia-se ao facto de, desde tenra idade, os seus pais o deseducaram, uma vez que, vindo ele do seio de uma família conimbricense abastada, a exigência social do meio onde estavam integrados associada ao desinteresse familiar de um pai ausente, prepotente e mulherengo, fez com que possuísse elevadas quantidades de dinheiro nos bolsos. O acesso a todo tipo de experiências estava facilitado e sem controlo de um adulto.

               Confidencializou-me que a sua opção de se tornar um sem-abrigo passou, também, pela dor de ter abdicado de um grande amor num determinado período da sua vida

O álcool e as drogas 

               Segundo Aurélio, as más companhias, o álcool e as drogas surgiram de forma natural e um estilo de vida de alto risco. «Quando tens dinheiro nos bolsos, tens tudo e todos ao teu redor.», diz. Segundo ele, o dinheiro fácil abriu-lhe portas que, de outra forma, jamais teria acesso. Confessa ter participado, enquanto menor, em jogos de sorte e azar. «O dinheiro era a chave de entrada

               Aurélio esteve preso por tráfico internacional de droga, quando foi um correio de droga e viu morrer diante dos seus olhos o seu melhor amigo. O irmão que nunca teve. Foi no Sobral Cid, hospital psiquiátrico, que esteve internado a determinada altura da sua vida. Desmoronou com a fortuna da família; «Juntamente com as mulheres que o meu pai sustentava nas suas viagens de negócios.», diz, com amargura na voz.

               Hoje afirma ter largado as drogas. Já o álcool, esse ainda lhe serve de cobertor, principalmente nas noites mais frias. Amante de animais, faz-se acompanhar de uma cadela que adoptou, a Luna, após a ter encontrado abandonada e amarrada a um contentor do lixo. Segundo ele, tem na Luna a sua melhor companhia. E por que assim é, vê-se muitos sem-abrigo sempre acompanhados de quem jamais os abandonará.

A comunidade dos sem-abrigo

               Não me bastava o relato na primeira pessoa. Necessitava de algo mais próximo da realidade, ainda que Aurélio ilustrasse bem a sua experiência de mais de década e meia, arrebatadora, replecta de emoções, sensações e sentimento. Fizera de tal forma intenso este seu relato, que consegui desenhar o filme da sua vida no meu pensamento.

               Senti que tinha de ir, realmente, para o mundo deles, diluir-me neles e viver, ainda que fosse uma noite apenas, as suas amarguras, frustrações e revoltas. Sempre tive a noção que todas as emoções que viesse a sentir seriam efémeras. Lembrá-las-ia para sempre, é certo, mas no meu regresso ao meu mundo, teria sempre um tecto que me aguardava, uma banheira e água quente. Ainda assim, avancei.

À noite, nas trevas

               Fomos deambulando pelas ruas da baixa de Coimbra. A noite caíra e com ela uma neblina gélida, húmida e fustigante. As ruas, mal iluminadas por umas lâmpadas de cor âmbar, proveniente de um cansaço do tempo, iam ganhando um aspecto sinistro, pardo, de elevado suspense, medonho. Aqui e ali, iam, carcaças debilitadas por uma sorte rude e traiçoeira, encostando-se embrulhadas em papelão, desaparecendo no seu interior, como ratos que se esquivam, após uma última olhada de vigia.

               «Estamos sempre em alerta.», comentou, continuando «Os mitras quando aparecem só fazem asneira.». Foi num tom de lamento que me contou a história da “Ti Alzira” , como carinhosamente a tratavam, uma senhora de setenta e poucos anos que tombou após ter sido agredida numa noite de trevas, por um grupo de organizado que, por vezes, espalha o terror nas ruas.

               A manhã surgiu e com ela os primeiros raios de sol, mais um dia sem tempo, pois esse já parou no passado. Sentados na escadaria de pedra gasta e polida do acesso à estação nova da cidade, eu e o Aurélio, em silêncio olhávamos a vida de mais um dia a surgir, acariciados pelos primeiros raios de sol, uma ténue aragem e um odor acre proveniente de um rio envelhecido e cansado. A meia-dúzia de metros, estendido no chão, um estudante ébrio.

               Num impulso convidei-o a tomar um pequeno-almoço, comigo, ao que este recusou, alegando que tal não era justo para os outros sem-abrigo da cidade.


               Levantamo-nos e despedimo-nos na promessa de um dia voltar a procura-lo. Quando atravessei a arcada da porta de entrada do edifício da estação, olhei para trás e fiquei a ver aquele homem que se afastava e que, para mim, representava a descrença num estado social com futuro, sem certezas nos seus sonhos de um mundo melhor para os sem-abrigo. Ficaram as últimas palavras que me dirigiu; «Se pudesse, edificava uma estrutura que albergasse os sem-abrigo durante a noite e deles cuidasse durante o dia…”, fez uma pausa, olhou o rio numa profundidade arrepiante e concluiu «…mas isso custa tanto dinheiro e ninguém quer saber de quem nada vale.».


quinta-feira, outubro 29, 2015



Caminhava eu, num destes dias por uma dessas tantas terras sem nome, pelo menos para quem nela vagueia em busca de algo, seja lá do que for, até porque, todos nós, buscamos algo, mesmo sem tantas vezes o percebermos.

Mas como dizia, vagueava eu num passo, ora acelerado, ou mais lento, em bom caminho ou em caminho, por vezes mais acidentado, que estas autarquias, como instituições públicas que são, só acertam o caminho por onde os seus governantes passam, olhei na profundeza da rua e vi alguém, uma ilha no meio da multidão.

Olhei e vi essa ilha, por que ela se diferenciava de todas as ilhas que por ali circulavam, com maior ou menor vigor. Não se diferenciava por ser maior, mais bonita, vistosa ou emblemática. Não se diferenciava por ser mais charmosa, bem falante ou sociável. Não! Essa ilha diferenciava-se, porque estava a fazer algo diferente. Essa ilha diferenciava-se, porque estava numa atroz serenidade, daquelas que escondem a desordem. A desordem emocional.

Aproximei-me, a passo lento e suave.

Parei a minha ilha defronte daquela ilha. Isolei a minha história diante daquela história. Amarrei os meus sentimentos, perante aquele porto sem amarras. Olhei-a. Erá um homem sem idade, que essa o tempo já consumira, um ser sem voz, sem postura social, faminto, tinha esse aspecto, sem nada...pensava eu!

Olhei-o, a principio sem nada dizer. Depois, com calma abordei-o, tentando ler as suas páginas, não aquelas que escrevia numa folha encardida, com um lápis já gasto e umas mãos cansadas. Tentei ler a sua história de vida. Aquela que lhe foi madrasta e que ninguém quis mudar. Aquela que o traio e ninguém o quis ajudar, aquela que era a dele, mas que poderia de ser de qualquer um de nós.

Como não sou doutor das emoções, não o consegui ler as suas páginas. Não consegui entender o que me dizia, o que me queria transmitir. Mas consegui perceber que sofria, que tinha fome, que necessitava de ajuda. Percebi que fora abandonado por uma sociedade hipócrita, prepotente, que apenas olha o seu umbigo...até ser também uma ilha isolada e parada, porque sozinhos já estão.

domingo, outubro 11, 2015



"Onde ele estava, eu ia. Onde eu ia, ele estava. Eramos os irmãos gémeos de barrigas e pais diferentes."   -    in "Aurélio, o sem-abrigo"


quinta-feira, setembro 24, 2015

Vem irmão, no teu cajado




Vem, irmão no silêncio,
De uma vida de dor
Que te queimou a voz
Que te arrancou a alma
Te amarrou na solidão

Arrastas-te no caminho,
No amparo do cajado
De uns pés cansados
Pelo tempo, rasgado
O teu corpo dilacerado
Em busca do Martinho.

Vem, meu irmão,
Apoia-te em meus ombros
De dois, um seremos
No caminho firme e duro
Um caminho faremos dourado
Do andar de pés tiranos
A força do Louvado.

E quando um dia chegarmos
A porta que nos aguarda
Estará aberta Além
Para finalmente, tranquilos
Descansarmos.

Miguel Branco em "Aurélio, o sem-abrigo"