Levantei-me, com vontade de fazer algo diferente, algo
revolucionário, irreverente. Abri a portada, em madeira, da janela do meu quarto, com alguma dificuldade, devido ao imenso tempo que esteve fechada e fui ofuscado por uma
luz que não conhecia. Tinha estado tempo demais fechado naquele cubículo que me atrofiou o pensamento, me limitou a
visão.
Saí, decidido, para uma
rua que não sabia existir, que não conhecia e que, por alguns momentos, me deixou desorientado. Por momentos hesitei, é verdade, mas a minha vontade de partir era enorme. Caminhei em diante, determinado, sem
olhar para trás, sem tentar perceber que distância me separava do ponto de partida.
Sim, era um
rebelde. Fizera algo de diferente, arrojado, destemido.
Caminhei em direcção à linha de comboio, a uma
linha que me levaria mais além, mais longe, a um lugar sem fim, sem destino definido. Conhecia o comboio, claro! Não era desconhecedor do mundo, daquele comum a todos os seres comuns. Corri, apressado para chegar...e cheguei!
Cansado, sentei-me num
banco em madeira, cansado, desgastado pelo tempo, pela intempérie. Era um banco envelhecido e perdido num tempo já ido. Esperei! Esperei e esperei! E o raio do
comboio nunca mais vinha. Levantei-me e caminhei de um lado para o outro. Nada!
Foi então que olhei ao meu redor e percebi o que se estava a passar... o tempo por mim passara sem que eu dera conta. O tempo já não contava na
estação que escolhera. O tempo fugiu e não voltou. Tentei recuperá-lo, correndo atras dele. Ou melhor, tentando, pois as pernas já não me permitiam
correr.
Percebi então que estava velho, cansado e já sem
tempo. Agarrara-me demais a quem não merecia a minha aplicação, o meu respeito, a minha determinação, o meu tempo.